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Full text of "Perfil do marquez de Pombal"

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PERFIL 

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EDITORES-PROPRIETARIOS 

CLAVEL & C.a i L. COUTO 6c C. 

PORTO Y RIO DE JANEIRO 



MDCCCLXXXII 



Os direitos de reimpressão d'esta obra, no Brazil, fi- 
cam para todos os efieitos cedidos aos snrs. Lopes do 
Couto & C. a , súbditos brazileiros. 




TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 
Rua da Fabrica, 66 — Porto 



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SOLDADO INTRÉPIDO E AMIGO INCORRUPTÍVEL 

OA UBERDADE QUE O FEZ GRANDE, PUBLICISTA CINCOENTA ANNOS, 

MINISTRO ALGUMAS VEZES - E SEMPRE POBRE, 



OFFERECE 



mais obscuro e agradecido dos seus amigos 



(gtzmivto (gad&m. <8$t<mco. 



-T^Wi, 



^íVoH 



PROEMIO 




|ste livro não pode agradar a 
ninguém. Nem aos absolutis- 
tas, nem aos republicanos, nem 
aos temperados. Chamo «tem- 
perados» aos que se attempe- 
ram ás circumstancias do tem- 
po e do meio. São os peores, 
porque são mixtos— tem três 
doses da bilis azeda dos três partidos. São 
a mentira convencional— a mascara. Déspo- 
tas para zelarem a liberdade, livres para 
glorificarem o despotismo. 

Escreveu-se esta obra de convicção, e 
sem partido, com uma grande serenidade 



VIII PROEMIO 



e pachorra. Não se ama nem desama al- 
guma das facçoens e fracçoens militantes. 
Sou um mero contemplador da fundição 
do metal de que hade sahir a estatua da 
liberdade portugueza; mas, em meio sécu- 
lo, será difficil empreza desaggregar o bron- 
ze, estreme do chumbo e da escumalha de 
ferro. 

A vida publica actual sente-se da boa e 
da má influencia da historia de ha cem an- 
nos. Os mais avançados estão com o mar- 
quez de Pombal. Por outro lado, as engre- 
nagens do machinismo conservador ganha- 
ram uma ferrugem que as vae roendo. Vive- 
se mais das tradiçoens que das evoluçoens. 

O marquez de Pombal resurge mais ou 
menos postiço e contrafeito dos moldes 
das três escolas politicas regimentares. A 
única talvez que poderia acceitar-me indul- 
gentemente este livro — a absolutista — de 
certo m'o regeita, porque eu não participo 
do seu ódio religioso — não direi christão — 
ao inimigo do jesuita, como padre. O meu 
ódio, grande, intranhado e único na minha 
vida, ao marquez de Pombal, não procede 
de affecto ao padre nem do desaggravo da 
religião: é por amor ao homem. A religião 
da dogmática infallibilidade do papa que 
decretou a extincção da Companhia de Je- 



PROEMIO IX 



zus, não merece que a gente se esfalfe e 
indisponha por conta cPella, nem tem um 
sério direito a queixar-se do marquez de 
Pombal cujas pretensoens, penso eu, não 
chegaram até á infallibilidade. O minis- 
tro, calumniando, matando e expulsando o 
jesuita a pontapés, n'um Ímpeto de per- 
versão, é menos reprehensivel que Cle- 
mente xiv abolindo a companhia depois de 
consultar o Espirito Sancto. É o que nos 
diz a Bulia Dominas ac Redemptor noster. 
A Democracia decerto repelle o meu li- 
vro da sua estante de historia e não lhe 
dará sequer a importância de o lêr. Quanto 
a refutal-o, a Democracia não gosta de il- 
laquear as suas theorias abstractas nas re- 
des da pequena historia, feita das malhas 
dos argumentos sediços. Ella tem uma Ideia, 
um symbolismo a que chamou — marquez 
de Pombal, adulterando-o até ás condiçoens 
fabulosas do mytho. Ora, eu escrevo de 
um homem a quem chamo — déspota. Isso 
que ahi passeou nas ruas foi um Pombal 
de romance, como o do Clémence Robert. 
A realidade dos factos foi sacrificada a 
uma bandeira que lhe emprestaram. Po- 
zeram esse manequim deante do povo por- 
tuguez — o mais rústico povo da Euro- 
pa. Vão lá dizer a um concierge que o. 



PROEMIO 



cardeal de Richelieu iniciou a liberdade da 
França! 

Se lessem este livro, diriam que não é 
assim que modernamente se escreve a his- 
toria. Pode ser; mas a verdade é assim 
que se escreve. Factos, com os documen- 
tos na mão. Bosquejei a biographia d'um 
homem feroz, e não me esqueci de assi- 
gnalar o maior numero de accessorios e 
contingências que o fizeram tão cruel. Se 
elle podia ser melhor e fazer mais do que 
fez, diga-o a critica; escusa, porém, de me 
observar que poderia ser peior, por que eu, 
quod absurdum, não creio. 

É portanto péssima a situação do autor 
do livro, se os distinctos partidos se hou- 
verem com elle menos indulgentes do que 
se lhes roga, quanto aos aleijoens das sa- 
bidas partes da oração. Todavia, pelo que 
respeita á substancia da obra — ao que ella 
incerra bom e verdadeiro, independente 
das faculdades vulneráveis do autor — para 
isso não só se agradece, mas até se con- 
vida a critica. É este um pleito em que se 
não faz mister engenho nem grandes pre- 
dicamentos de controversista. A minha po- 
sição é excellente, porque lhes bato com a 
historia; porém, se alguns argumentadores 
com uma ignorância muito acidulada ou 



PROEMIO XI 



com uma notável má fé me contravierem 
que o meu methodo histórico é idiota e 
que o meu livro é bestial — lisonjas que eu 
já não estranharei — nem assim me desar- 
mam os philisteus, porque n'esse caso faço 
da minha historia irracional o que Samsão 
fez da queixada do burro, e continuo a ba- 
tel-os com a queixada, quero dizer — com 
a historia. 

A idade-media desculpa Luis xi, e os 
reis e os validos espiados por adversários 
bárbaros como elles; o século xvm, o sé- 
culo de J. Jacques e de Bernardin de S. te 
Pierre envergonha-se de transmittir ao xix 
o marquez de Pombal como um precur- 
sor e adail da civilisação humanitária. Só 
á falta de um nome pomposo e aureolado 
de fulgores sinistros em que podesse en- 
carnar a ideia do bem, a Democracia, que 
nao sabe fazer andar uma ideia levantada 
e grande sem a encostar ás muletas d'um 
titulo, adoptou um marquez — o typo em- 
blemático do poder absoluto que, a um 
tempo, triturava fidalguia e ralé, e simul- 
taneamente sobrepunha na cabeça coroas 
heráldicas, perpetuando-as pelas geraçoens 
porvindouras com os vínculos e morgadios 
próprios e usurpados. 

A Democracia arriscou a ruins inciden- 



XII PROEMIO 



tes o seu futuro, festejando o centenário 
do conde de Oeiras, marquez de Pombal, 
alcaide-mór de Lamego, senhor donatário 
de Oeiras, Carvalho e Gercosa, mordomo- 
mór do paço, commendador das Três Mi- 
nas e de Santa Maria da Matta de Lobos, 
etc. Applaudindo incondicionalmente o ti- 
tular e o déspota, desauthorisou-se. Quando 
se queixar das providencias coagentes da 
policia, modificará o seu credo. Se o snr. 
conselheiro Arrobas §e houvesse excedido 
e por descuido ultrapassasse as balisas hu- 
manitárias da sua missão, elle diria que 
ficara muito áquem de Pina Manique — uma 
creação genial do marquez. 

Andou imprevidentemente a Democra- 
cia. Se a sua artilheria grossa apontava ao 
jesuíta, derruísse até ao cimento com a 
alavanca da sciencia o edifício religioso do 
clero, e não se exhibisse na procissão do 
marquez de Pombal, que do mesmo passo 
que abatia o jesuíta mandava dar titulo de 
magestade a Inquisição, como se lhe não 
bastasse ser sancta. Combatessem. Pois a 
moderna geração não está bem saturada 
da philosophia do seu Draper e do seu Lu- 
tzelberger, uns demolidores que discutem, 
desfibram, pulverisam o velho dogmatismo 
e evaporam em uma desconsoladora vacui- 



PROEMIO XIII 



dade todas as religioens de invenção hu- 
mana? Querem saber o que dizem os theo- 
logos? Que a mocidade, esquivando-se ao 
duello da sciencia, descamba nas assuadas 
dos centenários. 

Estão ahi dous ou três periódicos catho- 
licos redigidos por valorosos luctadores, 
não alheios á corrente da sciencia mo- 
derna. Porque os não impugnam e des- 
troçam, sem sahirem do seu escriptorio? 
Os chefes de família enviarão seus filhos 
á eschola clerical emquanto o leigo não 
demonstrar que o padre, sobre desmora- 
lisador, é inepto. Vejam se provam as duas 
proposiçoens, e depois deixem rolar si- 
lenciosamente, na onda magestosa do pro- 
gresso, para o abysmo das evoluçoens cum- 
pridas, o Pombal e o jesuita, o rei e o 
papa. D'aqui a pouco, nós e os nossos 
centenários, e a estéril inanidade das nos- 
sas solicitaçoens ruidosas ao Futuro, ire- 
mos na ressaca da mesma onda que virá 
colher o cisco da nossa Babel, e bem pode 
ser que o jesuita, renascido do seio de ou- 
tra civilisação, surja depois para se rir 
de nós. Se os ultra-liberaes de 1882 estão 
com o marquez de Pombal, quem nos affir- 
ma que as confederaçoens republicanas e 
atheistas de 1982 não hãode estar com os 



XIV PROEMIO 



jesuítas? As situaçoens parecem-me equi- 
valentes nas parallelas do absurdo. 

Este livro poderia ter apparecido antes 
dos festejos de 7 de maio. Seria então um 
protesto contra o enthusiasmo dos propu- 
gnadores do marquez de Pombal. Absti- 
ve-me d'essa aspiração vangloriosa, que te- 
ria uns ares desvanecidos de querer actuar 
sobre convicçoens radicadas, desviando o 
espirito innocente de pessoas, a muitos 
respeitos dignas, das figurarias do centená- 
rio. Seria, sobre infructifera, ridícula a em- 
preza. Não se desfazem com livros as per- 
suasoens que se fizeram com locaes de 
jornaes baratos. Além de que, a palavra 
synthetica jesuíta e o symbolo da queda da 
theocracia, individualisado no marquez de 
Pombal, são o vitalismo das três gerações 
que se tem succedido nas avançadas mili- 
tantes da liberdade. A porção do povo que 
não aprende nada em livros achou nos 
clubs a educação no discurso amoldado á 
sua capacidade, a sua dócil ignorância, e 
á sua congenial necessidade de revolucio- 
nar-se com palmas e gritos. Industriaram- 
no discursadores efflcazes, grandes phra- 
seurs, umas vezes ingénuos na sua inscien- 
cia audaciosa, outras vezes fraudulentos 
no seu jacobinismo contra as prerogativas 



PROEMIO XV 



da coroa e das thearas. Crenças assim ra- 
dicadas e cáusticas não se acalmam com 
cataplasmas de livros. São umas plectoras 
que ás vezes desgraçadamente se aliviam 
com sangrias enormes nas chamadas ba- 
talhas sociaes. Se essa hora nefasta che- 
gar, as mandíbulas do marquez hãode es- 
cancarar uma risada mephistophelica no 
seu sarcophago da rua Formosa. 

Parece-me temeridade endeusar os dés- 
potas em um grande concurso de inten- 
dimentos embrionários. Essa plebe escura, 
ou alumiada por instantâneos relâmpagos 
de phrases, se a vezarem á glorificação dos 
déspotas defunctos, não saberá resistir aos 
vivos. Não sabem porque foi que o conde 
de Basto prendia, exterminava e enfor- 
cava? Porque lhe incutiram no craneo es- 
pesso que elle era qual outro marquez de 
Pombal. E o conde de Thomar, ha 37 annos, 
não se lembrou também de ser Pombal? E 
estava no caminho de o ser a beneplácito 
régio, se não houvesse então uns athletas 
que se chamavam o Sampayo da Revolu- 
ção, o José Estevão, o Leonel Tavares, os 
irmãos Passos, o Alves Martins e o Parada. 
Leitão. Hoje, se os não ha — os Pombaes 
carnavalescos — é porque a Democracia os 
descaracterisou, adoptando-os na sua es- 



XVI PROEMIO 



chola. Ella teve artes e manhas de corror 
per o marquez, symbolycamente fallandc 
pela mesma rasão — oh justos céus! ó ii 
strucção primaria! — que eu já vi o mar 
quez de Pombal comparado ao regicida 
Cromwell. 

Eu não pedirei para os talentosos cau- 
dilhos do centenário o que pedia Goethe 
para si no extremo da vida — luz, mais 
luz! — A luz sobeja-lhes até ao deslumbra- 
mento. O que elles necessitam é mais larga 
comprehensão da Justiça, que só se ad- 
quire com esforçado trabalho de annos, 
menos palavrorio de clubs e mais canceira 
de estudo reflexivo. Quanto aos velhos que 
se encorporaram na festa pombalina dos 
académicos e nas bandeirolas das mestras 
de meninas, esses eram a porção do espe- 
ctáculo que representava a antiguidade da 
tolice em todas as ideias novas. 






PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



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gora que temos ahi á porta o centená- 
rio do marquez de Pombal, vem de mol- 
de lembrar alguns episódios d'aquelle 
tempo. 

Toda a gente sabe que as marquezas 
de Távora eram simultaneamente duas : 
uma, D. Leonor, — a outra, D. Thereza. 
A primeira, a velha, foi a que morreu 
degolada como regicida em 1759 ; a segunda, casada 
com o marquez, filho da justiçada, era a barregan 
do gordo D. José i. 

Esta passava os seus dias confortavelmente entre 
as commendadeiras de Santos, ao passo que o ma- 
rido, no cadafalso de Belém, era estrangulado, fra- 

i 




PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



cturado nas canas das pernas e nos braços a pac 
cadas de marreta, rodado, queimado sobre uma 
barrica de alcatrão, pulverisado e atirado ao Tejo. 
ministro inglez Hay escrevia então para a corte 
de Jorge n : 

«Pois que s. magestade deseja ser informado 
das particularidades d'esta conspiração, mencionarei 
uma circumstancia, que procuram occultar engenho- 
samente sem impedir que se não acredite, e é a 
única a que se attribue o pérfido procedimento dos 
Tavoras : — são as relações do rei com a mulher 
do marquez novo, as quaes começaram no tempo 
em que o general foi vice-rei da índia e continuavam 
agora». (Memoirs of the mar quis o f Pombal, by John 
Smiih) . 

D'este texto infere-se que a injuria feita pelo rei 
a um marido na condição vulgar do Távora, se não 
se considerava uma mercê magnânima, estava tão 
longe de ser um delicto, que a tentativa de vingança 
foi considerada, pelo ministro inglez, um pérfido pro- 
cedimento — treacherous behàviour. 

João Lourenço da Cunha, quando Fernando i lhe 
arpoou a mulher, adornou a sua fronte com duas 
pontas de ouro; outros maridos, porém, recebiam 
dos monarchas o ouro; e, em vez de o porem na 
cabeça em formas caprichosamente retorcidas, es- 
condiam-o nas algibeiras para evitarem o escan- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



dalo. Estes não se nomeam aqui para que os seus 
descendentes se não gabem de ter collaboração re- 
gia no seu génesis. 

Doesta marqueza apenas direi que era galante e 
casada aos dezesseis annos com o marquez seu so- 
brinho e da sua mesma edade; aos vinte e seis, 
cedeu sem rebuço ás sollicitações do rei, e aos trinta 
e seis assistiu com heróico desplante ao desfecho 
da tragedia, cuja responsabilidade era toda sua. 
Era mulher forte a valer. Sobreviveu incólume, tran- 
quilla e respeitada. Qualquer outra succumbiria no 
seu patíbulo interior, vendo tão barbaramente sup- 
pliciado seu irmão, o marquez de Távora velho, sua 
cunhada e sogra a honrada marqueza D. Leonor, 
seu cunhado e sobrinho José Maria de Távora, o 
outro seu cunhado conde de Athouguia, o duque 
d'Aveiro marido de sua irmã Leonor, e finalmente 
seu marido e sobrinho, que devia pungir-lhe a cons- 
ciência porque é certo que a adorava. Invulnerável 
a estes golpes, era natural que resistisse ás passa- 
geiras inquietações de ouvir o estertor dos que mor- 
reram nos subterrâneos do Bugio e da Junqueira — 
uns que tiveram a boa sorte de morrer depressa, e 
outros que ahi agonisaram dezoito annos. conde 
de Oeiras nada tinha que ver com o adultério 
de seu real amo e senhor; mas agora que temos 
ahi â porta o centenário do marquez de Pombal, 
vem de molde lembrar alguns episódios d'aquelle 
tempo. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



* 



O meu empenho é dar a conhecer o perfil da 
marqueza de Távora D. Leonor. 

Tinha sido gentilissima, d'um talento extraordi- 
nário, muito lida, uma verdadeira distincpão na 
corte de D. João v. Quando foi do terramoto, con- 
tava ella cincoenta e cinco annos, e os que a co- 
nheceram n'esse tempo chamavam-lhe formosa. O 
congregado Theodoro d'Almeida, seu contemporâneo 
e amigo, escreveu um máo poema intitulado Lisboa 
destruída. Se o publicasse em vida de D. José i, te- 
ria o destino do sábio Moura Portugal e do padre 
José Moreira. N'este poema, publicado em 1803, ha 
uma vinheta, a do canto in em que se vê a menia- 
tura da marqueza D. Leonor, e diz a tradição que 
era um retrato fidelíssimo em que o artista se es- 
merara a rogos do poeta. Estão com ella a filha 
condessa de Athouguia, a nora marqueza de Távora 
e uma neta. Representam-s3 a fugir do seu palácio 
derruído pelo terramoto. O congregado não extrema 
a marqueza velha das mais novas, quanto a bel 
leza. 



«N'e>te ponto avistaram de repente 
«Junto a si trez Matronas mui formosas. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Quem avistou as trez matronas são dois sujeitos 
pouco épicos, Tirso e Misseno, que andam a philoso- 
phar por entre as ruínas. poema raras vezes con- 
segue ser lúgubre como o caso pedia. Quando a 
gente se prepara para chorar na procissão de peni- 
tencia, o padre Theodoro d'Almeida, que triumphára 
no seu Feliz independente , dá-nos estas duas estan- 
cias : 



Ali marcha entr'o$ justos misturada 
Uma infame mulher, arrependida 
De seus crimes, e vae já tão mudada, 
Que sua face não é já conhecida. 
O ermitão, cuja vida retirada 
Estrangeiro o faria e morto em vida 
Ali vai : vão também os Estudantes, 
Os que vivem d'Offícios, e os tratantes. 



Vai um Monge, uma velha c'um letrado, 
Um menino, e um cego c'um estrangeiro : 
Vão dois padres, um coxo, um aleijado, 
Um abbade, um marquez e um barqueiro, 
Um ministro de Toga c'um soldado : 
Não imporia ir depois ou ir primeiro, 
E a Gram Patriarchal finalisava 
Este culto, com o qual Deus s'applacava. 



Para que Deus se applacasse foi preciso que a 
procissão sahisse cTaquelle feitio. E, com effeito, sa- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



crificadas 40:000 victimas, Deus applacou-se, e tud 
correu pelo melhor, como dizia o Doutor Pangloss 
que os inquisidores queimaram em Lisboa, se Vol 
taire não mente *. 

No poema, os arrasoados da marqueza são sem 
pre eloquentes. O padre António das Neves, da con 
gregação do oratório, escreveu notas eruditas á Lis 
boa destruída; e, com referencia aos conceituosoí> 
discursos da marqueza, observa que foi fácil ao poeta 
invental-os, pois que ainda eram vivas pessoas que 
a conheceram. O certo é que a marqueza, aos cin- 
coenta e cinco annos, era ainda uma esbelta senhora 
com o aprumo juvenil e o garbo da mocidade sadia 
e alegre. A's maneiras fidalgas e altivez de rapa 
ajuntava a superioridade do espirito, essa segunda 
fidalguia que devia tornal-a odiosa á estupidez das 
suas primas. 



■*■ 



A marqueza foi vice-rainha da índia, desde 1750 
até 1754. 



i Uns dizem 10:000, outros 15:000 victimas; porém 
Sebastião José de Carvalho, em um dos seus próprios pane- 
gíricos, diz que morreram pelo terramoto 45:000 pessoas. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Um dos muitos e maus poetas toanteiros cTaquelle 
tempo, celebrou assim o denodo da marqueza na 
coragem de se embarcar para a índia: 



Vai, ó formosa heroina, 
Do mar essas ondas sulca, 
Que, se és Vénus na belleza, 
Vénus nasceu das espumas. 



Se és divindade, não temas 
Da salgada agua as fúrias, 
Que até impera nos mares, 
Immortal, a formosura. 



Vai ser de Thetis inveja, 
Ser de Neptuno ventura, 
Das sereyas lindo encanto, 
Das nymphas formosa injuria. 



Os tritoens e as napeas, 
Sende alegres testemunhas, 
A nau — carroça, tu — Deusa, 
Passêa as ondas cerúleas. 



Vai que é pequeno hemispherio 
Um só mundo ás luzes tuas, 
E quem em um só não cabe 
Juntamente o outro busca. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



São do sol os diamantes 
Producção brilhante e sua ; 
Se produz lá um sol tantos 
Três que farão ? conjectura ! 



Vai examinar o oriente 
D'onde sahe a luz mais pura, 
Verás do teu nascimento 
Bello esplendor, copia justa. 



Vai que d'esta vez, Senhora, 
Ficará por tua industria, 
A valentia formosa, 
A formosura robusta. 



Mas vai só, vae teu esposo, 
Tudo o mais creio se escusa, 
Onde basta a tua fama 
Sobeja a sua figura. 



Sem violência no estrago 
Terão teus raios fortuna ; 
Se ao sol bárbaros adoram, 
Logo que chegas, triumphas. 



Se anima entre dous corpos 
Uma só alma e não duas, 
Pois a não partes na ausência, 
Melhor a vida asseguras. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Á dor da saudade foges, 
Tens razão, mostras desculpa, 
Por um estrago suave 
Trocas uma morte dura. 



Agoa e fogo são contrários, 
Teu amor naturaes muda, 
Pois faz com novo milagre 
Que o incêndio ao mar se una. 



Vai ! conheça o mundo todo, 
Mais alto poder divulga; 
Que o sexo que em ti domina, 
O sangue que em ti circula. 



Isto é o mais que podiam dar a Arte e o Ideal 
d'aquelle tempo, — o mais tenebroso eclypse das let- 
tras em Portugal. Mas este sincero enthusiasmo iné- 
dito de Caetano José da Silva Souto-Mayor — o Ca- 
moens do Rocio, devia sahir das trevas para nos dar 
um testemunho do alto espirito e phenomenal for- 
mosura da vice-rainha que então orçava pelos cin- 
coenta annos. 

Dizem alguns historiadores que D. José i enviara 
capitão general para a Ásia o marquez de Távora, 
afim de lhe poder conquistar a nora, cuja honesti- 
dade era vigiada impertinentemente pela marqueza 
velha. A desmoralisapão era possível; mas o ana- 



10 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



chronismo desmente-a. D. José não era rei quando 
marquez foi despachado. D. João v morreu, quanc 
o marquez vice-reinava. E' todavia acceitavel que 
príncipe cooperasse para esse despacho, porque 
data provável do adultério de D. Thereza justifica o 
lapso dos historiadores. 

Ingratamente pagava D. José i ao marquez as 
pomposas festas de acclamação que lhe celebrava 
em Gôa. N'este lance, o espirito da vice-rainha creou 
coisas novas na índia, e deu aos estrangeiros um 
testemunho da fictícia magnificência do génio portu- 
guez. Foi ella quem fez construir o primeiro theatro 
na capital da índia, para festejar em trez noites a 
acclamação do rei. theatro era no papo de Pan- 
gim. A primeira peça representada foi em francez 
— a tragedia de Poro vencido por Alexandre, de 
Corneille. 

São seis os personagens. Cinco dos actores eram 
francezes e um portuguez, familiares da marqueza, 
à excepção de dois olíiciaes, filhos do coronel Pier- 
remont. A maior parte dos assistentes não entendia 
palavra; mas — diz o desembargador de Gôa Fran- 
cisco Raymundo de Moraes Pereira — foi a represen- 
tação feita com tão vivas expressões que ajudados 
de um summario em portuguez que a senhora mar- 
queza tinha mandado traduzir da opera, todos sa- 
hiram satisfeito^ e agradados da novidade, única até 
ao presente enj Goa. 

Quem talhou os soberbos costumes e dirigiu a 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 11 



guarda-roupa foi a marqueza. Como a tragedia se 
passava na índia, foi fácil seguir o rigor dos ricos 
trajos. A vice-rainha assistiu aos lavores de cama- 
rim ; e, muito intransigente em pontos de verosimi- 
lhança, quiz que tudo tivesse a cor local. Nem na 
Europa se representaria tão cabalmente, diz o des- 
embargador x . 

Depois da tragedia, houve baile em que dança- 
ram os interlocutores e alguns oíliciaes extrangeiros 
disfarçados. desembargador não explica o dis- 
farce: quereria dizer que fingiam damas, talvez as 
bayaderas levantinas. arcebispo primaz assistiu á 
tragedia e ao baile, na frente da plateia, ao lado 
esquerdo do vice-rei. Findas as danças, a marqueza 
deu uma lauta ceia ás fidalgas goezas. 

Na noite seguinte, representou-se uma opera por- 
tugueza, desempenhada por curiosos, em que en- 
traram os Correias de Sá, irmãos do visconde de 
Assôca. A opera era Adolonymo em Sidónia, diz o 
desembargador com insufficiente correcção. Apolo- 
nymo em Sidónia, é que era, imitação de Alessan- 
dro in Sidónia, de Apostolo Zeno, indigesta empada 
impressa em 1740. Agradou muito pela intelligencia 
do idioma, accrescenta o chronista. 



1 Annual Indico Lusitano dos successos mais memora- 
veis e das acções pai ticulares do primeiro anno do felicíssimo 
governo do ///.-o e ex. m ° snr. Francisco d' Assis de Távora, 
marquez de Távora, etc. Lisboa, 1753. 



12 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



■ 



Dois dias depois, houve outro jantar para os ca 
valheiros, outra ceia para as damas, e representação 
de uma comedia hespanhola. Mas o grande banquete 
a toda a nobreza foi no quarto dia dos festejos, em 
que os brindes eram acompanhados a salvas de ar- 
tilheria. Nunca se vira no oriente uma exuberância 
egual de iguarias. magistrado exclama profunda- 
mente tocado : «Competiu em todos estes dias a 
grandeza com a profusão, estando a copa de sua 
sua excellencia aberta e prompta para todos os que 
queriam chá, chocolate, café, doces e outras delica- 
das bebidas, sendo egual o gosto dos creados que 
serviam á grandeza e realeza do sangue do seu il- 
lustrissimo e excellentissimo amo!» A marqueza fa- 
zia então distribuir regalos e avultadas esmolas pelas 
famílias fidalgas decahidas em miséria — relíquias 
dos antigos potentados da Ásia arruinados pela dis- 
sipação; e durante os quatro annos do seu vice-rei- 
nado subsidiava com mesadas os que não podiam 
vir ao papo receber as esmolas. Esses mendigos en- 
vergonhados eram os legítimos representantes da 
índia portugueza. 

A caridade da marqueza era tanto ou quanto 
maculada pela soberba da sua estirpe. Não descia 
uma linha da pragmática da sua alta posição. A es- 
posa de um rajhah enviara-lhe um rico presente; 
mas no sobrescripto da carta não lhe dera excellen- 
cia. A marqueza devolveu-lhe o presente e a carta, 
— coisas que lhe eram decerto entregues por en- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 13 



gano, visto que a illustrissima não era a vice-rainha 
da índia. A mulher do regulo emendou; e, feita a 
errata, o presente foi recebido e liberalmente com- 
pensado. 

marquez inventara um ataque simulado entre 
a tropa e os sipaes para festejar a acclamação. Nas 
suas Instrucções aos sargentos mores e aos coronéis, 
declara preremptoriamente que, se algum dos solda- 
dos nâo andar bem, depois de ensaiado, será casti- 
gado asperissimamente. E os soldados, para evitarem 
o castigo, quando atacavam Pangim defendido pelos 
sipaes atiravam-se ao mar despidos e calçados; e 
uns pobres cavalleiros, para evitarem a conflagração 
de uma mina, attascaram-se com os cavallos n'um 
pântano, d'onde lhes custou muito a sair com vida. 

Este marquez de Távora era intelligente. Não in- 
ventou a pólvora; mas inventou um engenho de a 
moer com perfeição desconhida; e quem inventou o 
moinho, também seria capaz de inventar a pólvora, 
se fosse preciso. desembargador descreve larga- 
mente os pormenores da machina inventada pelo 
ex. mo vice-rei, e demonstra que o barril de pólvora 
de custo de 56^000 réis, pelas reformas e inven- 
ções do marquez, se obtinha por 33$000 réis. Elle 
também fez bom uso da pólvora contra os régulos, 
n'aquella guerra de cabotagem em que os vice-reis 
imaginavam sustentar as tradições dos Albuquer- 
ques e dos Castros. Castigou o Canajá, inimigo po- 
deroso que infestava os mares; arrasou a fortaleza 



i4 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



de Neubadel e queimou as embarcações. Soccorrei 
Neutim e venceu o Marata em batalha naval. Tome 
a fortaleza de Piro ao rei de Sunda e devastou 
terras de Pondá e Zambaulim. Emfirfi, as proezas do 
marquez de Távora tem a immortalidade de quinze 
opúsculos de auetores diversos archivados pelo snr. 
Figaniére, e quasi todos raros, por que, depois da 
conspiração contra o rei, houve o propósito de illi- 
rninar da historia o nome e os serviços da família 
Távora. 

ex-vice-rei, quando se recolheu ao reino, em 
1754, já não encontrou na barra de Lisboa os mem- 
bros da familia real que o tinham ido cumprimentar 
e acompanhar na sabida para o oriente. D. José i 
já participava do ódio do seu ministro á familia que 
o desconsiderara por que, em verdade, os Tavoras 
não conheciam Sebastião José de Carvalho, neto do 
padre Sebastião da Mata Escura e da preta escrava 
Marlha Fernandes. A marqueza, quando desembar- 
cou, estava triste; sabia que a sua casa estava des- 
honrada, e que seu filho devorava em silencio a 
affronta da esposa. Não obstante, a ex-vice-rainha 
era a grande fidalga, a mais perfeita senhora, o mais 
brilhante espirito dos salões onde se não via Sebas- 
tião José cie Carvalho. 

Agora, as duas paginas finaes do destino da 
mais formosa jóia da corte de D. João v. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



15 



* 



A aurora do dia 13 de janeiro de 1759 alvore- 
java uma luz azulada do eclipse d'aquelle dia, por 
entre castelios pardacentos de nuvens esfumaradas 
que, a espaços, saraivavam bátegas de aguaceiros 
glaciaes. O cadafalso, construído durante a noite, es- 
tava húmido. As rodas e as aspas dos tormentos 
gottejavam sobre o pavimento de pinho. Ás vezes 
rajadas de vento do mar zuniam por entre as cruzes 
das aspas e sacudiam ligeiramente os postes. Uns 
homens, que bebiam aguardente e tiritavam, cobriam 
com encerados uma falua carregada de lenha e bar- 
ricas de alcatrão, atracada ao cães defronte do ta- 
blado. A's 6 horas e 42 minutos ainda mal se en- 
trevia a facha escura com umas scintillapoens de es- 
padas nuas, que se avisinhava do cadafalso. Era um 
esquadrão de dragoens. patear cadente dos cavai- 
los fazia um ruido cavo na terra empapada pela chuva. 
Atraz do esquadrão seguiam os ministros criminaes, 
a cavallo, uns com as togas, outros de capa e volta, 
e o corregedor da corte com grande magestade pa- 
vorosa. Depois — uma caixa negra que se movia va- 
garosamente entre dois padres. Era a cadeirinha da 
marqueza de Távora, D. Leonor. Alas de tropa la- 
deavam o préstito. A' volta do tablado postaram-se 



16 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



os juizes do crime, aconchegando as capas das face 
varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra 
reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham 
chofrar espumas no parapeito do cães. Havia um< 
escada que subia para o patíbulo. A marqueza apeoi 
da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres 
Ajoelhou no primeiro degráo da escada, e confe 
sou-se por espaço de 50 minutos. Entretanto mar- 
tellava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, 
cravavam-se pregos necessários á segurança dos 
postes, aparafuzavam-se as roscas das rodas. Rece- 
bida a absolvição, a padecente subiu, entre os dois 
padres, a escada, na sua natural attitude altiva, di- 
reita com os olhos fitos no espectáculo dos tormen- 
tos. Trajava de setim escuro, fitas nas madeixas 
grisalhas, diamantes nas orelhas e n'um laço dos ca- 
bellos, envolta em uma capa alvadia roçagante. 
Assim tinha sido preza, um mez antes. Nunca lhe 
tinham consentido que mudasse camiza nem o lenço 
do pescoço. Receberam-a três algozes no topo da 
escada, e mandaram-a fazer um giro no cadafalso 
para ser bem vista e reconhecida. Depois, mostra- 
ram-lhe um a um os instrumentos das execuçoens, 
e explicaram-lhe por miúdo como haviam de morrer 
seu marido, seus filhos, e o marido de sua filha. 
Mostraram-lhe o masso de ferro que devia matar-lhe 
o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras 
ou aspas em que se lhe haviam de quebrar os ossos 
das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 17 



explicaram-lhe como era que as rodas operavam no 
garrote, cuja corda lhe mostravam, e o modo como 
ella repudiava e estrangulava ao desandar do arro- 
cho. A marqueza então succumbiu, chorou muito an- 
dada, e pediu que a matassem depressa. algoz 
tirou-lhe a capa, e mandou-a sentar n'um banco de 
pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa que do- 
brou de vagar, horrendamente de vagar. Ella sen- 
tou-se. Tinha as mãos amarradas, e não podia com- 
por o vestido que cahira mal. Ergueu-se, e com um 
movimento do pé concertou a orla da saia. O algoz 
vendou-a; e ao por-lhe a mão no lenço que lhe co- 
bria o pescoço, — não me descomioonhas — disse ella, 
e inclinou a cabeça que lhe foi decepada pela nuca, 
de um só golpe. 



■*■ 



Este começo de carniceria, n'aquella manhã de 
nevoeiro, debaixo de um ceu de chumbo,. impassí- 
vel como a lamina que degolou Leonor de Távora, 
hade sempre lembrar com horror e piedade. Porém, 
que nome execrado, que verdugo responsável es- 
creveremos na pagina da Historia? Sebastião José, 
esse não tinha nada que ver com os adultérios de 
seu real amo e senhor. Mas agora que ahi temos á 
porta o centenário do marquez de Pombal, vem de 
molde recordar alguns episódios d'aquelle tempo. 




(CARTA A GONÇALVES CRESPO) 




orque é que Henri Heine e Gonçal- 
ves Crespo intitularam Nocturnos 
o livro dos seus versos? Nocturnos 
uns poemas tão luminosos, com uma 
claridade tão boa, tão oxigenada 
para os coraçoens das damas e para 
as almas dos philosophos ! Noctur- 
nos iria bem nas lyricas. plangentes 
do romantismo, quando o poeta, no tétrico silencio 
da noite alta, ia aos adros dialogar com a coruja do 
eremitério e levar ao môciío as consolações de um 
sócio no infortúnio. 

Não pode ser. A intenção do titulo deve ser di- 
versa d.i que se exprime no adjectivo trivial das 
coisas tristes e escuras. 



20 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Noctwmos chamam-se os três psalmos de uma 
das preces matutinas do ritual christão. Os mon 
ges resavam os Nocturnos ao repontar da manhar 
aos primeiros alvores do diluculo. Eram os psalmc 
do arrebol, auroras, alvoroço e trilo de aves, zuri 
bido de insectos, a faxa dos horisontes a esbater-se 
n r uma poeira doirada, bálsamos e aromas de corol 
las a desabotoarem-se, a natureza adorando-se eu 
si mesma, tudo alegrias, muita luz em fim. Deste 
modo, meu presado poeta, intendo eu o nome deste 
seu cofre de jóias que V. Ex. a intitulou Nocturnos. 

Não pretendo aquilatar estas jóias. Estou velho 
de mais para tão subtis especulapoens. aço do mei 
cérebro, oxidado pelos muitos invernos, ja não es- 
pelha imagens lyricas. Escrevo-lhe com a pretenpãc 
modesta e caturra de fazer em prosa deslavada uma 
glossa a este soberbo soneto que V. Ex. a me oíferece: 

NO JOGO DAS CANNAS 

Em garbosos corcéis da Arábia cavalgando 
Entram na larga arena os próceres luzidos; 
Corusca a pedraria, e esplendem, fluctuando, 
Dos cocares a pluma e a seda dos vestidos. 



A quadrilha gentil dos Tavoras ardidos, 
Com os lacaios da Torre um prélio simulando, 
Terça galhardamente ; o apparaioso bando 
Deixa os olhos da turba em êxtase embebidos. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 21 



Nas janellas do paço é Ioda a fidalguia : 
Que jocundo prazer, que risos, que alegria ! 
Espectáculo augusto, e nobre, e singular. 

O sexto Affonso applaude : emtanto, maliciosa, 
Maria de Nemours, sorrindo, a incestuosa ! 
No cunhado, subtil, poisa o lascivo olhar. . . 



«A quadrilha gentil dos Tavoras» diz V. Ex. a É 
de Tavoras também e d'um torneio que eu lhe vou 
lembrar a cavalleirosa historia. 



■*■ 



visconde de Villa Nova da Cerveira, estribeiro- 
mór da princeza do Brazil, mulher do príncipe D. 
José, convocou trinta e dois fidalgos da primeira 
grandesa em 1738, para festejarem o anniversario 
natalício da futura rainha D. Maria Anna Victoria 
com escaramuças militares, ao estylo africano, e cor- 
rida de touros pelos fidalgos mais peritos e' cele- 
brados n'essa prenda. Eram o duque de Cadaval, os 
marquezes de Távora e Alegrete, e Manoel António de 
Sampayo e Mello, senhor de Villa Flor. 

Construiu-se um amphiteatro, na Junqueira, em 
que trabalharam por espaço de sessenta dias trezen- 
tos e quarenta e cinco carpinteiros. Da actividade 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



(Tesses artistas falou a poesia de um vate contem 
poraneo : 

Sempre estão trabalhando 
por que estão os mais (Velles conversando 

no machado encostados; â 

quem os partira a iodos c/os machados ! 

Quanto á matéria prima do edifício, disse outro 
contemporâneo em prosa épica que era frondosas 
produóçoens cie Flandres. Dizer pinho seria uma af- 
fronta á Rhetorica e á Academia dos Occultos. Á en- 
trada do circo havia um perystilo com quatro don- 
zellas aos cantos, figurando as quatro partes do 
globo. A respeito d'estas figuras emblemáticas disse 
o mesmo poeta : 



Tarjas formosas se divisam bellas 
entre as quatro figuras das donzellas; 
isto, ja se suppôe, galanteria; 
por que donzellas ja as não havia, 
quando houve quatro partes do universo, 
nem ainda em prosa quanto mais em verso. 



Luis xiv portuguez tinha destes Boileaus. 

duque de Cadaval, estriheiro-mór, foi o en- 
saiador dos torneios. Repartiram-se em quatro gru- 
pos ou Fios os trinta e dous fidalgos. Cada fio tinha 
seu Guia. Os quatro caudilhos dos grupos eram o 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 23 



Cadaval, o marquez de Távora, o conde de S. Mi- 
guel e o visconde de Villa Nova de Cerveira. 

Antes de entrarem os espaventosos fios na pra- 
ça, contemplemos um ou dous barandins de damas 
do paço, e não paguemos egual preito aos camaro- 
tes dos reis e infantes, e dos ministros e dos três 
cardeaes — uma grande massa rubra de sujeitos 
gordos, coalhados de coisas que scintillavam, e ro- 
çagando pomposas vestimentas da purpura de Sy- 
donia. 



* 



No camarote da princeza do Brasil explendia o 
grupo das suas açafatas. Realçavam em fidalguia, 
em primor de atavios, estrelladas de diamantes e 
deslumbrando por formosura seis damas muito inti- 
mas da princeza D. Maria Anna Yictoria. 

A marqueza de Távora, que tinha sido a prima- 
cial bellesa da corte de D. João v, orçava então pe- 
los trinta e oito annos, e não era menos contempla- 
da na admiração dos personagens que faziam a sua 
corte ás gentilissimas senhoras. Entre ella e sua fi- 
lha Marianna, promettida ao conde^ de Athouguia, 
estava a princeza Marianna Leopoldina de Holstein, 
casada três annos antes em Allemanha com D. Ma- 
noel de Sousa Calhariz, capitão das guardas alle- 
mans. A marqueza fallava em francez com a prin- 



24 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



ceza; e sua filha Leonor, uma menina de dez annos 
que, volvidos oito, foi marqueza de Alorna, ouvic 
muito attenta a conversação que não percebia. N< 
regaço da marqueza sentava-se ás vezes, muito trê 
fego, um menino de três annos, o seu filho mai 
novo, José Maria, a quem a futura rainha acariciava. 

N'outra bancada de velludo cramezim, D. The- 
za de Távora, irman do marquez, olhava de relance 
com amoroso sorriso seu sobrinho e noivo Luiz Ber- 
nardo de Távora, um esbelto moço de quinze annos, 
da mesma edade de sua tia, com quem lhe haviam 
contractado o casamento. Esta menina, muito buli- 
çosa e desinvolta, segredava ditos alegres a D. Pe- 
lagia de Almada, neta da princeza de Soubise, e 
ambas, em froixos de riso, desviavam os olhos da 
fixidez de um fidalgo quasi sexagenário que as não 
desfitava com a fronte avincada de ciúmes do prín- 
cipe D. José. Era D. Luiz de Castello Branco, um su- 
jeito obeso que tinha sido cónego da patriarchal ; e, 
como o primogénito morresse sem successão, her- 
dara-lhe a casa e o titulo de conde de Pombeiro. 
Elle alcançara dispensa para casar, e todo seu em- 
penho era matrimoniar-se com os vinte annos encan- 
tadores de D. Pelagia, afim de propagar-se mediante 
uma senhora a todos os respeitos digna do facto phy- 
siologico e genealógico. 

E o caso é que se propagou, casando-se no anno 
seguinte. Os ciúmes, porém, eram injustos. O prín- 
cipe, em verdade, olhava com insistência menos ho- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 25 



nesta para a mais nova das damas — a menina The- 
reza Távora, a das argentinas casquinadas que o 
faziam por vezes esquecer-se da sua gravidade de 
marido, de pai e de futuro rei. A cunhada e pro- 
mettida sogra da linda creança, a marqueza de Tá- 
vora D. Leonor olhava de soslaio para o príncipe e 
€om um toque de cotovêllo malicioso chamava a at- 
tenção da princeza de Holstein. 

Havia no grupo das damas do papo outra Leo- 
nor de Távora, (eram três as Leonores) irman do 
marquez, esposa destinada para o marquez de Gou- 
vêa, mordomo mór, que do camarote real a corte- 
java com sorrisos e gestos familiares. D. José Mas- 
carenhas contava então trinta annos. Nascera filho 
segundo, e, como tal destinara-se para a mitra; mas 
um desatino amoroso do irmão mais velho, que fu- 
gira quatorze annos antes com D. Maria da Penha 
de França, casada com D. Luiz d'Almada — e assim 
se expatriara para sempre — lhe deu a grande casa, 
o titulo e a mordomia mór. Era muito soberbo e 
muito odiado, de mistura com seu tio, o sinistro 
arrabido fr. Gaspar da Encarnação que dominou 
D. João v. Leonor de Távora, pouco afortunada de 
bens, tinha vinte annos e formosura que justificava 
a paixão do marquez com quem casou no anno se- 
guinte, e por quem, passados treze annos, foi du- 
queza d'Aveiro. 

Estas senhoras compunham a constellação mais 
coruscante do circo; mas luziam muitas estrellas su- 



26 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



balternas que poderiam allumiar o interesse d'este 
quadro em tella muito maior. As damas da côrle de 
D. João v eram prodígios de galanteria. Um escri- 
ptor coevo, filho de Vizeu, Manoel Marques Resende, 
immortalisou-se por esse tempo com um opúsculo» 
intitulado Espelho da corte. A impar de noticias de 
antigas mulheres bonitas, e não menos sacudido por 
convulsões rhetoricas, diz elle ao seu amigo Fileno : 
«Emquanto á gentil presença das pessoas, sejam os 
vossos olhos as línguas que vos informem, pois te- 
reis visto que as Helenas, as Vénus, as Julias, as 
Laidas, as Lamias e as Roras, que foram as trez 
mais agigantadas formosuras e mais famosas que 
nasceram na Ásia, e outras muitas que celebra a 
antiguidade, não podiam competir (ainda que pa- 
reça hyperbole) com a galharda simetria, airosa 
composição, magestosa bellesa e singular graça das 
formosuras d'esta corte.» Não se pôde ser mais his- 
tórico e fino galan! E com os homens também nãa 
é parco: «Nem o Adónis de Vénus, o Narciso de 
Ecco, o Jacinto de Apollo e o Ganimedes de Júpiter 
podiam oppor-se ao garbo, confiança, gentilêsa e 
pompa da mocidade.» E 1 o mais que se pôde dizer 
d'aquelles lisboetas, do século xvm, já agora tão 
degenerados, tão gafos e corroídos que encostam a 
sua espinha empenada ás humbreiras das tabaca- 
rias do Chiado. Outro chronista das festas, Fernando 
António da Rosa, fortalece o conceito do seu collega 
Rezende: «Em toda a circumferencia d'esta soberba 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



27 



e magestosa fabrica se mostrava tão admirável har- 
monia de bellesas que, deixando em esquecimento 
as Europas, as Danaes e as Didos, formava toda 
esta variedade de maravilhas, em um inimitável 
jardim de sensíveis viventes ílores, um perceptível 
firmamento de animadas racionaes estreitas.» Taès 
eram aquellas Europas. 



* 



A liça trasborda de titulares, de moços fidalgos 
e desembargadores. Abundam cónegos e monsenho- 
res. Prelados de ordens ricas refocilam-se das cos- 
tumadas austeridades. Gaiatos apregoavam alféloa e 
agua fresca em bilhas de Extremoz. Viam-se em pa- 
lanques modestos os argentados do commercio — 
os tratantes, como então se dizia profeticamente e 
inconscientemente. Fora do circo, no restante ter- 
reno da Junqueira até ao largo de Belém, estancea- 
vam trez mil sete centas e vinte e oito carruagens; 
sobre o Tejo velejavam trez mil e nove centas em- 
barcapoens. Os sociológicos de hoje em dia ponde- 
ram que n'aquelle tempo havia uma grande miséria 
dissolvente a pedir um Pombal redemptor. Eu sou 
da eschola histórica positivista de Thomas Buckle. 
E' da estatística das bestas que deduso a prosperi- 
dade dos homens. Trez mil sete centas e vinte e 



28 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



oito carruagens inculcam pelo menos sete mil quatr 
centas e cincoenta e seis cavalgaduras. Isto, n'i 
dado momento, á volta de uma praça de toiros, po- 
derá significar a dissolvencia de um paiz, demons- 
trando-se que uma autonomia pôde ser dissolvida a 
couces. Está, porém, provado que não, visto que 
ainda fruímos as philarmonicas do 1 .° de dezembro 
e hymnos correlativos; e, quanto a bestas, talvez 
ainda mais que as sete mil quatro centas e cincoenta 
e seis, não incluindo ninguém pessoalmente *. 



1 O luxo progrediu, e passou por cima das pragmáti- 
cas de D. João v e de D. José i, até que o terramoto de 
1755 subverteu a maior parte dos grandes patrimónios ere- 
dusiu os pequenos á pobresa. Em 1754, apezar das ruas es- 
treitas e declivosas, havia em Lisboa 300 coches, 4:500 se- 
ges de particulares, mais de 400 de aluguer, e um grande 
numero de liteiras, paquebotes e cadeiras-de-mão. O mar- 
quez de Pombal escreveu impudentemente que, entrando 
para o ministério em 1750, achara o reino pobre e o erário 
vasio. No anno anterior ao terramoto, D. José i recebeu dos 
seus direitos quantia superior a 14 milhões de cruzados. 
Quando Portugal experimentou a suprema e vergonhosa mi- 
séria foi no ministério do conde de Oeiras. Em 1759, os sol- 
dados que guardavam a porta do conde de Oeiras pediam 
esmola a quem visitava o ministro; ao embaixador francez i 
conde de Merle pediu publicamente esmola um sargento. Em 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 29 



* 



Doze mil pessoas não acharam entrada. Essas 
doze mil pessoas foram ver os ornatos das torres 
de Belém e do Bugio. D^sta embandeirada torre 
disse o épico das festas : 



Ali vi a fortaleza do Bugio 

Com quem de quando em quando 
Muita meslrança andava bugiando, 

E sem lhe darem vaia 
Vinham os mais ftelles bugiar á praia. 



1762, o embaixador O-Dunne participava ao conde de Choi- 
seul que os sargentos de algumas companhias e um capitão 
lhe tinham pedido esmola. Em 1759, o rei, querendo ir para 
Mafra, e não tendo dinheiro, levantou do deposito publico 28 
contos de reis; e, no mesmo anno, querendo ir para Villa 
Viçosa, levou o dinheiro apurado na venda dos moveis, 
pertenças dos jesuitas. (Quadro Elementar, t. vi, p. 144, 153, 
171, et. vn, p. 150). Também Portugal, em 1756, recebera 
de Inglaterra uma esmola de 100:000 libras para remediara 
catastrophe do terramoto (Quadro Elementar, tom. xviii, 
pag. 361). E, quando a tropa portugueza mendigava aos re- 
presentantes da França em 1759, pagava o thesouro 36:000 
cruzados por dous mezes ao cantor Egipcielli e pelo mesmo 
tempo pregava-se á porta da Alfandega um edital em que 
D. José i pedia ao paiz dinheiro emprestado. Que pelintragem ! 
que rei e que ministro ! 



30 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Não sei que magestade olympica, phenomena 
que synchronismo esthelico descubro roeste poei 
com o sultão de Odivellas e com aquelles íidalgosj 
alcaiotes do rei e dos príncipes! Aquelle homem sa- 
bia-se rir. Os portuguezes eram indignos d'elle, do 
vingador de Camoens — um palerma que tomara a 
serio este Portugal, velho devasso do occidente, em 
que depois a Maria de Nemours do seu soneto, meu 
presado Crespo, inoculara o vírus que trouxera do 
duque de Lauzun. 

A trova, dos tempos da incestuosa, disia: 

Enfermo do mal francez 
Ha annos está Portugal, 
E não sara (Teste mal 
Porque o curam ao revez. 



De uma rainha frãneeza 
Que aqui veio a Portugal 
Se pegou tão grande mal 
Ne4a Nação portugueza. 
Penetrou mais na nobreza 
Este pe4ifer> humor: 
Já não ha grano 1 e senhor 
Que este veneno escondido 
Lhe não tenha corrompido 
De seu peito o interior. 
Ete. \ 



D'es!e salyrico de 1680 não sei diser-lhe o nome 
nem o carrasco lh'o soube; mas o ouíro, o das les- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 31 



tas da Junqueira, era do Porto e chamava-se Tho- 
maz Pinto Brandão. Como a fome o não pôde matar, 
morreu aos oitenta annos a rir. Contra a fome rea- 
giu escrevendo Relaçoens e Gazetas. E, fora d'isso, 
achava que o poeta em vez de comer, era um co- 
mestível da desgraça. E exclamava : 



Não haja mais poetas 
do que os das Relaçoens e das Gazetas, 
d'isto se come ? ah Christo ! 
quem tivera mais cedo dado ríisto ! 1 



1 Os biographos de Thomaz Pinto Brandão ignoram 
que elle, como Luiz de Camoens, teve o ofíicio de escrivão 
dos defuntos e ausentes, com a differença que não perdeu 
um olho nas pelejas da Africa nem andou pelo Oriente como 
o seu collega. Muito fino. Dinheiro ern requerimentos tam- 
bém não dispendeu ceitil. Era elle quem escrevia as suas pe- 
tiçoens n'este género : 

Diz Thomaz Pinto Brandão, 
morto de fomes presentes, 
que dos defuntos e ausentes 
pretende ser escrivão ; 
e por quanto Minas são 
as de que intenta dar fé, 
pede lhe concedam que 
largando a penna das cortes, 
tome a do Rio das Mortes 
e receberá mercê. 

Requeria a escrivaninha dos ausentes e defuntos do Rio 
das Mortes em Minas-Geraes. 

D. João v gostou da chalaça e mandou que o despachas- 



32 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



* 



Agora, vamos á festa. Entreram primeiro duas 
columnas de granadeiros com os seus sargentos mo- 
res; e, com fim de apresentarem armas, fizeram 
umas difficilimas manobras de quartos de conversão, 
terços de fileiras — uma cousa linda, linda, em que 
os sargenros-móres, uns paparrêtas d'uma conspi- 
cuidade de milicianos, se ensaiavam para as futu- 



sem ; mas o poeta, receando claudicar no officio ou naufra- 
gar como Luiz de Camoens, intendeu que para se livrar de 
contingências que lhe manchassem a memoria perante a pos- 
teridade, o mais acertado era vender o officio com o régio 
consentimento. N'uma noite de luminárias em anniversario 
de natalicio real, requereu de novo : 

Diz Thomaz Pinto Brandão 
sem bom nem máo exercicio 
que hoje renuncia o officio 
se propina lhe nâo dão. 
E pois que acêzo brandão 
por luminária se vê, 
pede lhe permitiam que 
possa pôr n'outro mancebo 
officio, luz, mecha e sebo, 
e receberá mercê. 

D. João v riu-se muito, e mandou aceitar a renuncia. 
Poeta e rei muito bons ambos. Quantos prosadores infelizes, 
cheios de serviços, teriam requerido o emprego? 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 33 



ras gargalhadas de sua alteza o conde de Lippe. 
Quando a tropa desalojou em linhas pelas quatro 
portas da praça, deixando a todos penhorados, pe- 
garam de entrar os Guias com os seus cavalleiros *. 
Cadaval é o primeiro. Precede-o uma azemola com 
o seu martinete emplumado e dois costaes com as 
canas e alcanzias, velados por um chairel verde 
com as armas ducaes do estribeiro-mór. Cinco la- 
caios de libré verde e galoens de prata conduzem 
outros tantos ginetes á mão, ajaezados de arreios 
cravejados de pedraria, franjados de ouro, e seus 
telizes armoreados. Seguem trinta e um cavallos com 



1 Os quatro grupos ou fios com os seus guias eram 
assim formados : 

l.° 

Guia — Duque de Cadaval 

Marquez d'Alegrete. 

Conde de Povolide. 
Cavalleiros < D * Antonio Rolim de Moura (Azambuja). 

José Bernardo de Távora (coronel). 

D. João da Costa (Soure). 

Conde de S. Thiago. 
Contra-guia — Manoel de Távora. 






2.° 

Guia — Visconde de Villa Nova da Cerveira. 
/ Conde de Lavradio. 
I Conde de Vai de Reis. 
Cavalleiros } D# Francisco Xavier Pedro de Souza. 
Manoel Antonio de Sampaio e Mello. 
D. Manoel de Souza (Calhariz). 
Luiz de Saldanha da Gama. 
Contra-guia — D. Braz Balthasar da Silveira. 



34 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



os respectivos lacaios e chaireis roçagantes com 
brazão de cada um dos cavalleiros. Mais, desesei; 
moxillas com as lanças e adargas, um limbaleiro 
cinco trombeteiros equestres á frente de um alferes 
que desfralda um estandarte farpado de selim verde 
com franja de ouro e as armas do Cadaval. Depois, 
o duque com a sua quadrilha, a trez de fundo, cor- 
tejam o rei, os príncipes, as damas, e arrumam-se 
a um lado. Os cavallos resfolgam, relincham e es- 
carvam na terra borrifada, fitam as orelhas e cur- 
veteiam ligeiramente á vontade dos cavalleiros. 
Eram da primeira grandeza os fidalgos; mas, a ca- 



3.° 

Guia — Marquez de Távora. 

Ayres de Saldanha d'Albuquerque. 

António de Saldanha d 1 Albuquerque. 

. Luiz Guedes de Miranda (Murça). 
Cavalleiros < _ ... . 

A Nuno de Távora (Alvor). 

D. Fernando d 1 Almeida. 

D. Thomaz da Siiveira d' Albuquerque. 

Contra-guia — D. Luiz de Portugal. 



4.° 



Guia— Conde de S. Miguel. 

D. Francisco de Menezes (Ericeira). 
Visconde de Villa Nova da Cerveira (Telles). 
D. Álvaro José Botelho (8, Miguel). 
Cavalleiros ^ Franci>c0 Xavier de Miranda Henriques (Sandomil). 
D. Marcos de Noronha (Arcos). 
I José Joaquim de Miranda Henriques. 
Contra-guia — D. Luiz de Souza (Calhariz). 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 35 



vallo, ficavam maiores, e sentiam-se electrisados 
pelo fluido da admiração de todas aquellas Europas 
e Didos, como dizia o outro. 

A entrada e as pompas dos restantes grupos re- 
gulam pelo primeiro. que de algum modo os des- 
crimina é a côr da plumagem dos cocares: o duque, 
plumas brancas e verdes, e os cavallos adornados 
das mesmas cores; Távora, plumas brancas e es- 
carlates; S. Miguel, brancas e amarellas; VUla Nova 
da Cerveira, brancas e azues. Quanto a riqueza de 
ornatos, diz o chronista, excediam a opulência dos 
Midas. Não falia em orelhas. 

O primeiro espectáculo foi uma escaramuça de 
labyrinto. meu amável Crespo imagina o que era 
a escaramuça de labyrinto, e o torneio das lanças, 
e o das canas ou flexas que uns despediam e outros 
desviavam com a espada. Taes proezas fizeram que 
na opinião do Homero pedestre d'estas lides, os fi- 
dalgos venceram rteste dia os mais celebres Cavai- 
leiros da fama. que valia a Portugal eram estas 
escaramuças. Devia-se aos taes cavalleiros da fama 
o império da Africa, da índia, nao fallando nas con- 
quistas, navegações da Etliiopia, Arábia e Pérsia, 
e seus domínios, que é mais alguma coisa, de que 
ainda se está gosando o snr. D. Luiz i. 

Depois, houve o jogo das alcanzias. As alcanzias, 
como sabe, eram umas espheras ocas de barro pin- 
tado, que elles atiravam á cara uns dos outros; o 
atacado defendia-se com o escudo ; e as bolas (pode 



36 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



lér os bolas, se quizer) desfaziam-se com o choque 
Meus ricos fidalgos, como elles se apercebiam d< 
bravura, com pellas de barro, para manterem a su; 
hombridade, quando viesse depois arpoal-a a.garr; 
de um só homem! 

Desfeitas as alcanzias, acabou-se o primeiro di; 
de festa, e descançaram quarenta e oito horas. 

Seguiu-se a tourada real. Os quatro cavalleiros 
toureadores eram, como eu já disse, os mais cele- 
brados do tempo. Eil-os que entram na praça, tira- 
dos por seis ursos, e sentados n'um faetonte. O 
carro, assim chamado, era aberto por todos os la- 
dos, para que a multidão os visse. Assim que suas 
magestades entraram na tribuna real, sahiram da 
praça os cavalleiros, deixando em todos, assevera 
o Rosa, uma segura esperança de ser esta a tarde 
mais plausível do presente século. Plausível pelos 
trambolhoens que levaram os fidalgos, como vae 
ver. marquez de Távora, um ginetario de pri- 
meira ordem, com a sua casaca de gorgorão ama- 
rello, de alamares de prata, calção de velludo negro, 
polainas brancas com íitas amarellas, chapeo agaloado 
de prata, plumas brancas, guarnecido de topázios 
e presilhas de brilhantes, contava então trinta e 
cinco annos, era coronel de cavallaria, e muito 
gentil da sua pessoa. A marqueza soffreu no seu 
coração e na sua vaidade quando o marido, por 
lhe cahir um estribo, deu azo a que o marquez de 
Alegrete matasse o boi com o garrochão. D'outra 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 37 



vez, o touro foi-lhe de encontro ao cavallo, e atirou 
o cavalleiro tão alto, que o vento lhe levou o cha- 
peo, e o cavallo morreu. Alegrete vingou o Távo- 
ra, matando o boi á espada; mas d'um modo que 
nos espantaria, se não soubéssemos dos poetas coe- 
vos que este marquez costumava abrir com a mesma 
cutilada o boi e a sepultura do morto. D'esta vez, 
porém, fez mais, conforme attesta o chronista: deu- 
lhe tão grande golpe sobre o espinhaço que logo pela 
ferida sahiram ao boi as entranhas. Se lhe dá o 
golpe no ventre, sahia-lhe por elle o espinhaço. O 
marquez de Alegrete á sua parte matou três bois, 
os outros mataram cinco. O Távora e o senhor de 
Villa Flor sahiram contusos, mas gloriosos, pela 
3arte que tiveram nas cutiladas que espadanavam 
iorros de sangue na praça, em quanto os bois eram 
arrastados pelos lacaios. Ninguém deplorava os 
atassalhados animaes. N'aquelle tempa ainda não 
havia o sentimento que o senhor de Pancas, n'um 
opúsculo memorativo d'outras toiradas regias, cha- 
mava, com fidalgo azedume, philantropia corni- 
gera. 

No terceiro dia repetiram-se as escaramuças do 
primeiro, e terminou a festa por uma continência a 
suas magestades em que entraram, afora os trinta 
e dous fidalgos, cento e noventa e dous lacaios, e 
duzentos e quarenta cavallos. 



38 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



* 



relator das proezas dos trinta e dous próce 
res que, ajudados dos volantes, abateram oito boi 
á espada e garrochão, conclue assim o seu pregãc 
enviado á posteridade : Veja e admire o mundo que 
se nas vistosas acções de um fingimento conduz para 
respectiva admiração o invencível esforço doestes He- 
roes, sendo esta apparencia de guerra um emprego 
de curiosidade, que fará se chegar o tempo em que 
descarreguem os golpes, movidos ou obrigados dos 
furiosos Ímpetos da cólera ou dos nobres impulsos da 
vingança? 



•*• 



Os golpes vieram, «vibrados pelos furiosos Ím- 
petos da cólera» e não acharam arnez que os reba- 
tesse d'aquelle peito de fidalgos dissolutos incapa- 
zes de reagir ao braço forte de um adversário of- 
fendido e inexorável. A maioria, senão todos os ma- 
gnatas d'essas festas, n'aquelle anno de 1738, mur- 
muravam do rei que abrira a carreira diplomática 
em Londres a Sebastião José de Carvalho, que os 
fidalgos de primeira grandeza despresavam pelo seu 
nascimento comparativamente baixo e pelo seu ca- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 39 



samento violento com uma sobrinha do conde de 
Arcos. 

A mocidade deste homem agitara-se em tempes- 
tades que hoje chamaríamos canalhas e a munici- 
pal castigaria a espadeiradas. Foi -um espancador 
distincto, um extremado trocista. 

Á sua formatura em jurisprudência é impossível 
já agora descobrir as causas impeditivas. Tédio dos 
assumptos? incapacidade? preguiça? reprovações? 
indisciplina de costumes incompatíveis com o es- 
tudo? Seria tudo. E' todavia certo que Sebastião 
José de Carvalho em lettras ficou muito abaixo da 
craveira dos seus coevos na Academia de Historia. 
A sua peça litteraria em que se presume o máximo 
consummo de meditação, de talento e sabedoria é 
o Elogio do marquez de Louriçal escripto e impresso 
em Londres. 

E' uma burundanga deslavada com brotoeja de 
solecismos e inchaços de hyperboles, um gongoris- 
mo muito estafado da eschola cio Vahia e dos Eri- 
ceiras com pretenções a Jacinto Freire. Tem uns 
relanços de hypocrisia em que o leitor sente por 
egual as cócegas do riso e o antôjo da nauzea. O 
velhaco, encomeando a educação do menino Louri- 
çal, escreve : Sobre tantas applicações diversas, foi 
preferido por modo eminente pelos Paes e Avôs Ex- 
cellentissimos, o zeloso disvelo de irem cada dia mais, 
e mais, embebendo primeiro nos dogmas do Calhe- 
cismo, depois nas máximas da Moral Christã, a 



40 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



parte essencial do Espirito d'aquelle, que nascera 
destinado não só para lhes succeder na Caza, ma 
para o incomparável fim de os seguir na gloria da 
Bemaventurança eterna. 

Nem sinceridade nem grammatica. 

Cita-se, como peça litteraria, uma carta-panegy- 
rica de Sebastião de Carvalho a Júlio de Mello e 
Castro, encarecendo-lhe a Vida de Diniz de Mello 
Eis aqui o melhor período : Gloria não pequena será 
da Monarchia, que este livro se participe aos Reinos 
estranhos, porque admirarão a pezar das soberbas 
Estatuas, que a seus Ce z ar es lavravaõ os Romanos 
que Portugal mais nobre muito dilata as excelsas 
quanto vai da insensibilidade de hum mármore, que 
serve aos Epitáfios da morte ás Rhetoricas vozes de 
uma narração, que se serve; e ao mesmo passo mul- 
tiplicando duraçoens ao juiso, que a faz eterna: fi- 
cando de dous merecimentos as edades perpetuadas a 
attenção em um simulacro. Que farfalhudas mara- 
valhas ! Parece o outro que consultava o doutor Ma 
noel Mendes Enchundia sobre o passadiço da ilha da 
Pico para a ilha do Báltico. 

Sebastião era bastante bronco : sejamos justos 
Esteve em Londres seis annos, e não aprendeu da 
língua ingleza uma palavra para fallar, nem sequer 
para traduzir. seu biographo John Smith dá a per 
oeber, fundado n'umas memorias manuscriptas do 
biographado, que elle por causa dos seus achaques 
e muitos estudos, não teve tempo em seis annos de 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 41 



conjugar um verbo inglez. . . He regrets that thegreat 
variety of studies he found it necessary to pursue, in 
arder to become acquainted with the history, cons- 
titution, and legislation of England, coupled with al- 
most constant ill health, prevented him from acquiring 
a knowledge of the English language. (T. i, pag. 45). 

E aos outenta annos estava na mesma ignorân- 
cia (Tum idioma que lhe cumpria saber como mi- 
nistro universal para tratar sem interprete com os 
cabos de guerra que chamou de Inglaterra em 1762 
para defender o reino. — Chamou-os elle, o adver- 
sário intransigente dos inglezes, como por ahi alar- 
deiam uns innocentes que tem o seu perdão seguro 
desde que Jesus de Nazareth, do alto da cruz, pe- 
diu por elles eternamente. 

Quando lhe chegaram a Pombal umas Cartas im- 
pressas em inglez, que elle desejava muito decifrar, 
pediu ... O marquez que conte : Julgou a marqueza 
de Pombal que poderiam ser as mesmas (carias) con- 
tendas na dita collecção e consequentemente me pe- 
diu que as mandasse ao dito Guilherme Steffens com 
a recommendação de as fazer traduzir por pessoa 
a quem elle podesse pagar o seu trabalho. Tendo 
porém sua irman Philadelfia Steffens contrahido com 
a occasião da visinhança amisade com a mesma mar- 
queza, tomou por empenho traduzir as referidas car- 
tas e as foi periodicamente remettendo d proporção 
que as ia traduzindo. (Compendio histórico e ana- 
lytico, etc). 



42 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Mas vamos, meu presado Crespo, em cata de 
homem a Lisboa depois que desistiu da formatura 
quer forçado, quer espontaneamente. Encontramol-o 
com praça assente de soldado raso. George xMoore 
diz que a necessidade foi a causa principal de se 
fazer soldado, e presume que elle chegou a cabo-de 
esquadra: — rasão para que os cabos-de-esquadra se 
arregimentem no centenário, parece-me. Wanb, diz 
biographo, had the largest share in impelling him to 
the ser vice. . . He is said to have raised himself to the 
rank of corporal. Sebastião de Carvalho esperava ser 
promovido a ofíicial com a protecção do tio Paulo ; po 
rém, tão antipathica era a sua fama que foi excluído de 
uma grande promoção em que os criados de alguns 
fidalgos passaram a capitães. Refinou então, espo 
reado pela raiva, nas tropelias e arruaças que lhe 
deram a má reputação. Voltou ás proezas noctur- 
nas. Acaudilhava uma jolda de valentoens com libré 
especial de capote branco. Pancadaria brava por 
aquellas alfurjas de Lisboa, lamacentas e negras, 
onde não tinha ainda alvorejado a aurora do azeite 
de purgueira. Sebastião José e os da sua quadrilha 
eram o terror d'outras alcateas de facínoras, capi- 
taneados por fidalgos, de maneira que já na corte os 
irmãos do rei não menos arruaceiros e chibantes ou- 
viam com ciúme as façanhas do Carvalho. 

Por esse tempo, cortejava elle uma galante víuví 
D. Thereza de Noronha e Almada, sobrinha do conde 
dos Arcos. Concorriam n'elle o prestigio da valentia 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 43 



e a gentilêsa pessoal. Levou de assalto o coração da 
viuva e fugiu com ella para Soure, repellido pelo tio 
Paulo e ameaçado pela vingança dos Noronhas. Ca- 
sou e esteve sete annos na província, odiado e obs- 
curecido, comendo a broa de milho de Soure, como 
elle disse na Carta escripta a Frei Gaspar da En- 
carnação. (HlST. DO BEINADO DE D. JOSÉ, por So- 

riano, tom. n, pag. 210). 

Em 1738, inesperadamente, Sebastião José de 
Carvalho é enviado a Londres por D. João v. Quem 
o protegeu ? O snr. Soriano, presume que foi o car- 
deal da Motta para obsequiar o arcipreste Paulo de 
Carvalho. Não pôde ser. Paulo de Carvalho tinha 
morrido um anno antes. Quem o protegeu foi um 
frade arrabico, fr. Gaspar Moscoso, tio do marquez 
de Gouvêa — aquelle duque de Aveiro com quem o 
conde de Oeiras saldou contas de gratidão mediante 
a massa de ferro que o matou a pancadas, no estô- 
mago — para lhe demorar a agonia. 

D. fr. Gaspar da Encarnação, primeiro ministro 
de João v, não era máo — era uma sancta besta. 
Sebastião de Carvalho, farto da broa de milho de 
Soure, é que sabia cantar aos frades idiotas aquelles 
mysticos arrobos da Bemaventurança eterna, que já 
lhe conhecemos do Elogio do marquez de Louriçal. 

Como quer que fosse, quando elle sahiu para 
Londres, houve entre os fidalgos um assombro ran- 
coroso. A esposa que ficou em Lisboa achou cerra- 
das as portas dos seus parentes, e pouco depois a 



44 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



21 de março de 1739, abriram-se-lhe as da sepu 
lura para ir gosar aquella Bemaventurança etem 
que o viuvo e todos nós lhe desejamos. 

Entretanto, o tigre açacalava os gryphos. 



* 



Volvidos vinte e um annos, meu adorável poeta 
sobre os famosos torneios e touradas da Junqueira 
vamos ver o que é feito d'aquellas deliciosas fidal 
gas do camarote da princeza e d'alguns d'aquelle: 
toureadores e cavalleiros da tourada real. 

Primeiramente, as damas. 

notório supplicio da marqueza de Távora lem 
brei-o, ha dias, como quem conversa sobre assum 
pto muito sabido. Quatro versos seus, meu carc 
poeta, embora esculpidos em frio bronze, com 
muito parcimoniosa sentimentalidade da sua es 
chola, dariam d'aquella catastrophe uma compunção 
que a minha proza decerto não moveu. V. ex. a sabe 
como aquella alma de esposa e mãe foi alanciada 
em quanto o cutello misericordioso a não redimiu 
d'esse inferno da ultima hora. 

Sua cunhada, D. Leonor de Távora e Lorena 
viuva do marquez de Gouvêa e duque d'Aveiro fo 
encarcerada no pobre convénio do Rato, sem re- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 45 



curso algum, privada do pão das arras, reduzida á 
extrema penúria, a ponto de servir as freiras a troco 
de uns sapatos velhos e d'uma saia para não andar 
descalça e nua. Esta duqueza tinha um filho, que 
ao tempo em que sua mãe, aos quarenta e três an- 
nos, morria traspassada de dores tamanhas que só 
um poder divino podia creal-as, pedia elle de es- 
mola umas ceroulas no Forte da Junqueira, por que 
estava nu e tiritava de frio na sua caverna *. 



1 Em 1777 sahiu do cárcere com os outros prezos; e, 
como não tinha de seu uma tábua, foi D. Martinho de Mas- 
carenhas enviado aos frades de Mafra para o fartarem no 
seu refeitório. Os historiadores não sabem desta passagem 
do cárcere para o mosteiro. Todos os outros fidalgos exhu- 
mados d'aquelles ergástulos á voz de D. Maria i, tinham 
família que os consolasse e restaurasse com as cariciosas 
lagrimas da alegria. O filho do duque d' Aveiro não tinha 
ninguém. Fez como os mendigos: foi á portaria d'um con- 
vento. Alli o encontrou o bispo de Coimbra D. Miguel da 
Annuneiação, da caza de Povolide, quando n'aquelle anno de 
1777 sahiu da masmorra de Pedrouços, e por lá passou, ca- 
minho da sua diocese; mas tão cortado de oito annos de tre- 
vas, de fome e nudez que já em 30 de agosto de 1779 era 
fallecido. íNo Itinerário manuscripto do prelado vem assim 
descripto o encontro: ...«Pelas 11 horas e um quarto da 
noite chegou a Mafra, onde passou o dia seguinte recebendo 
frateroaes obséquios da sua amada communidade. Ahi se 
achava o ex."* D. Martinho de Mascarenhas, marquezqueé 
de Gouveia,, filho primogénito do infeliz duque d'Aveiro. 
Distinguiu-se muito nos obséquios do ex. m0 bispo aquelle 



46 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



A condessa de Athouguia, D. Marianna de Ta 
vora, filha da marqueza, ao mesmo tempo que seu. 
marido era levado ao Pateo dos bichos, foi enclau 
surada no convento de Marvilla : tinha sido condem 
nada á morte; mas o rei commutou a pena em pri- 
são perpetua. A marqueza d'Alorna foi encerrada com 
as creanças em Chellas. Quanto á outra marqueza de 
Távora, D. Thereza, a das risadas argentinas no cama- 
rote da Junqueira — essa, bem sabe, foi para o real 
mosteiro de Santos, onde lhe deram aceados apo- 
sentos, d'onde não mais voltou ao seu palácio, que 



bem instruído, amado e agradável fidalgo que soube tirar i 
trazer da sua reclusão as mesmas bellas qualidades de um 
cavalheiro christão. Deve-se a Deus a sua índole e a um 
bom mestre que teve na sua prisão a educação que o faz me- 
recedor de toda a estima e fortuna que conseguiria na boa 
conservação de seu pae. Elle se chama desgraçado e deve í 
sua desgraça a occasião de se fazer ainda mais benemérito 
pelas suas virtudes». 

D. Martinho adquirira pela sua provada innocencia n 
delicto do pae a compaixão dos velhos inimigos do duque 
Animaram-no a pedir á rainha a restituição de alguns dos 
bens confiscados, e Paschoal José de Mello fez a Representa- 
ção a D. Maria i (Noutes de insomnia, tom. viu, pag. 27). 
piedosa não respondeu. O marquez de Gouvêa esteve algun 
tempo feitor do marquez de Alorna, que o fez capitão d'um 
regimento. D. João vi deu-lhe uma mesada por esmola, até ! 
que o ultimo da linha principal dos Mascarenhas morreu 
em 180i n'uma pobre casa em Buenos-Ayres. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 47 



o não tinha, nem aos braços do rei que estava sa- 
ciado *. A princeza Marianna Leopoldina de Holstein 
não foi preza ; mereceu algumas finezas raras, e a 
mais notável foi avisarem-na de que seu marido, 
D. Manoel de Sousa Calhariz, tinha morrido na Torre 
do Bugio, ao fim de quarenta e cinco dias de prisão 
sem se lhe conceder o viatico que o levasse áquella 
conhecida Bemaveniuranca eterna de Sebastião José 
de Carvalho 2 . 

Os Tavoras que figuraram e assistiram nas esca- 
ramuças da Junqueira eram, como viu, o marquez 
Francisco de Assis, seu filho Luiz Bernardo e aquella 
creança de três annos José Maria. 

Estes morreram estrangulados, fracturados e ro- 
dados, com o conde de Athouguia. Além d'estes, João 



1 Logo que o marquez, seu marido, foi preso e con- 
duzido ao Pateo dos bichos, entrou no palácio dos Athou- 
guias fr. António de SanfAnna, provincial dos Arrabidos e 
confessor de D. Joào v, procurou a marqueza e disse-lhe que 
sua magestade a mandava recolher ao mosteiro de Santos, 
com uma tença mensal de vinte moedas de ouro que el-rei 
lhe dava do seu bolso. 

2 O embaixador conde de Merle disia, em 1759, ao 
duque de Choiseul: «Se eu vos referisse as aíTrontas que 
recebe a princeza de Holstein e os seus dous filhos terieis 
compaixão I Queixumes e gemidos soam de toda a parte.» 
(Quadro Elemealar, t. vi, pag. 186.) A princeza não movia 
a piedade de ninguém porque tinha dado ao marido os su- 
premos golpes da deshonra. (Vej. Memorias do bispo do Pará, 
pag. 10o.) 



48 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



de Távora morreu no forte da Junqueira, ali perti 
do terreno onde se construirá o barracão dos to 
neios de 1738. Nuno de Távora, José Bernardo, M 
noel de Távora, então creança, e José Maria, ume» 
nego, irmão do marquez estiveram nas masmorr; 
do Forte desde 1758 até 1777. Ali acabaram o cond 
de Óbidos e o marquez da Ribeira, asmáticos e ep: 
lepticos, n'unxa agonia inexpremivel, pungentement 
referida pelo marquez d'Alorna nas Prisoens da J 
queira. Thomaz Telles da Silva visconde de Vill; 
Nova da Cerveira, um dos cavalleiros do fio do cond» 
de S. Miguel, morreu no castello da Foz do Douro 
ao cabo de nove annos de segredo. 

Quanto ao duque d'Aveiro. . . duque d'Aveiro 
consoante o alvitre de Sebastião José de Carvalho, 
devia ser sentenciado a morrer lentamente na fo 
gueira, como os outros réus da ralé, o Romeiro e 
os Alvares ; mas o rei contrariou essa refinada cruel- 
dade, concedendo apenas que o reo fosse descalço, 
e que, em vez de lhe malharem no peito com a 
mapa de ferro, a pancada batesse no ventre afim de 
que se prolongasse a agonia. 

supplicio dos Tavoras tinha sido menos demo 
rado. A pancada no peito fracturava as costellas de 
encontro ao coração e polmoens causando hemorra- 
gias fulminantes ; porém, no ventre, por causa ds 
elasticidade das vísceras, era atroz, mas não matava 
de prompto. 

A exposição miúda do processo do supplicio 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 49 



cada reo fidalgo não constava da sentença. Nesse 
requinte de barbaridade os algozes tinham sido in- 
directamente ensaiados pelo ministro Carvalho. 

Mas V. Ex. a está anojado como eu d'esta san- 
goeira, e quer perguntar-me em que se occupava 
Deus n'esse tempo. Deus, no dizer das Santas Es- 
cripturas, envergonhava-se de ter creado o homem, 
ou arrependia-se de ter consentido que o Diabo col- 
laborasse com a Sua Divina Magestade na formação 
do nosso primeiro avô. Esta é a opinião dos illus- 
tres heresiarcas Manetes e dos Partenianos aos quaes 
eu tenho o desgosto de me associar por esta occa- 
sião. Sou manicheu por causa de Sebastião José. 

Verdade é que eu tenho outra idêa mais blasphe- 
ma, e é — que a maior calumnia que se pôde assa- 
car a um Ente Perfeito é imputar-lhe a creação do 
homem. 



* 



Que me não esqueça lembrar-lhe que, trinta e seis 
annos depois, para festejar o nascimento do príncipe D. 
António, primogénito de Carlota Joaquina, houve no 
Terreiro do Paço as ultimas cavalhadas portugue- 
zas mantidas por trinta e dois fidalgos, divididos em 4 
turmas ou fios, como em 1738, na Junqueira. Um dos 
Guias também era duque de Cadaval, o outro era mar- 



80 PERFIL DO MÀKQUEZ DE POMBAL 



- 



quez (TAlorna filho do que estivera desesele annos no 
forte de Junqueira, e neto do marquez de Távora justi- 
çado em Belém ; o terceiro era o conde de Óbidos filho 
d'outro que morreu no cárcere da Junqueira, e o 
director das festas era o marquez de Ponte de Lima, 
filho do visconde de Villa Nova da Cerveira que mor- 
reu no ergástulo do castello da Foz. Nas turmas dos 
justadores via-se o conde de S. Lourenço, filho do 
outro que sahiu sandeu da masmorra em 1777, e o 
conde de S. Miguel e o de Caparica que eram Tavo- 
ras, e o conde da Ega que era Távora e Mascara- 
nhas. De mistura com estes próceres netos e filhos 
dos justiçados figuravam nos torneios dois netos 
do marquez de Pombal — o conde de Sampayo, e o 
senhor de Pancas José Sebastião de Saldanha e Oli- 
veira Daun que morreu conde de Alpedrinha em 
1855, e publicou em 1842 a Relação histórica das 
cavalhadas ou Tomeio-real em 1795. E uns e outros, 
fallidos de brios, de honra e de memoria espojaram- 
se bizarramente no terreiro do Paço na presença do 
futuro João vi que se babava de jubilo, e erabe- 
bedaram-se egregiamente nos sallões do marquez 
d'Abrantes. Que admira, se o marquez de Pombal, em 
1791, era neto de um irmão do marquez de Távora 
suppliciado em 1759 com sentença de perpetua in- 
fâmia imposta á sua memoria! 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 51 



Ha cinco annos que V. Ex. a me disse em Coim- 
bra, pouco mais ou menos : 

— Diga-rae umas telas históricas que eu possa 
emoldurar na poesia. 

Estas não lhe servem? 

Que deliciosos arabescos o seu cinzel incompa- 
rável pode rendilhar no ouro das molduras! 



NOTA 

Além dos livros vulgares que authorisam a substancia 
histórica d'esta carta deve consultar-se para as miudezas 
das justas e torneios de 1738 a Relação das insignes festas 
que aos felizes e reaes annos da Princeza nossa Senhora se 
fizeram no sitio da Junqueira, por Fernando António da Rosa, 
1738; e para as cavalhadas de 1791 a Relação histórica já 
referida. 

O primeiro opúsculo, raro e curioso,, apresenta-se com 
esta reeommendação do celebre Camões do Rocio, o correge- 
dor do crime Caetano José da Silva Soutomayor : Todos os 
que emp rendem a dificultosa applicação de escrever uma his- 
toria dilatada, e recôndita, mendigam continuamente os irre- 
fragaveis testemunhos que pelos authores coetâneos em seme- 
melhantes papeis cazualmente se imprimiram. Grande utili- 
dade terão os futuros historiadores desta monarchia em ave- 
riguar certamente que no anno de mil e sete centos e trinta 
e oito existiam rteste reino e nesta corte os trinta e dois Fi- 
dalgos da primeira grandesa de quem esta eloquente composi' 
cão declara os títulos, as filiações, os postos, as qualidades e 
os exercícios; por que fiando-se commumente de pessoas de 
tanta distinção os maiores empregos na paz e na guerra, é 

* 



52 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



certo que os seus nomes e as suas acçoens hãode ter uma 
grande parte na venturosa descripção da sempre invicta glo 
ria portugueza . . . 

Um dos futuros historiadores a quem alludia o vidente 
desembargador e já dramatisado Camoens do Rocio, era eu. 
Sou eu quem primeiro, explorando as cryptas das geraçoens 
encineradas, pude, graças ao folheto, tirar a limpo que, a res- 
peito dos fidalgos, no anno de 1738, havia os taes 32. Quando 
se averigua uma coisa assim, apanha-se immortalidade e cen- 
tenário. 





u aniKfrfínftt, e fx/sojfoJ jotr<_ as rodas 
'/fwrro l u f ify (_/45irgu«a (7c Tai 
r> í, Lfat c3fW« 

fjo. k» a&i % ífou«..a. 










km § àmmp f J^jh 




ste sujeito, no dia 13 de janeiro de 
1759, condemnado como regicida, foi 
queimado vivo ... em estatua. Sup- 
plicio tolerável. 

A sentença disia : Aos dois ferozes 
monstros António Alvares Ferreira e 
José Poly carpo d y Asevedo, que dispa- 
raram os sacrílegos tiros de que a su- 
prema magestade de el-rei nosso senhor recebeu a of- 
fensa, condemnam a que com baraço e pregão sejam 
levados d mesma praça, e que sendo riella levan- 
tados em dois postes altos, se lhes ponha fogo que vi- 
vos os consuma, até se redusirem seus corpos a cin- 
zas e a pd, que serão lançadas no mar. . . 



54 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Depois, manda a sentença que lhe confisquer 
os bens e salguem as cazas, se elle as tiver — cor 
dição que revela o previsto talento dos desembai 
gadores — e continua: E por que o reo José Poly 
carpo se acha ausente, o hão por banido, e mandai 
ás justiças de sua mageslade que appellidem cont 
elle toda a terra para ser preso, ou para que cad 
um o possa matar não sendo seu inimigo: E no 
caso em que seja apresentado preso nos dominio 
doeste reino ao desembargador do paço Pedro Gon 
çalves Cordeiro Pereira, juiz da inconfidência, mar 
dará gratificar á vista a pessoa ou pessoas que 
apresentarem com o premio de dez mil cruzado, 
sendo aprehendido em paiz estrangeiro, além da 
despezas que na jornada se fizerem. 

Os dez mil cruzados ficaram nas arcas do erário 
premio era tentador — era uma fortuna n'aquelle 
tempo; mas o condemnado ao fogo em vida, se al- 
guém o viu e conheceu, ninguém o entregou ao car- 
rasco. 

■ 

Jose Polycarpo de Asevedo estava no palácio de 
Azeitão, quando o duque de Aveiro foi prezo, em 13 
de desembro, três mezes e dez dias decorridos de- 
pois da tentativa de regicídio. Estava ao lado do 
duque e mais seu cunhado Manoel Alvares Ferreira, 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 55 



que ainda lançou mão do espadim do escrivão, 
quando o prezo forcejava por evadir-se. Esle Fer- 
reira, que era guarda-roupa e copeiro do duque, foi 
prezo com outros creados indicados na lista do des- 
embargador encarregado da diligencia. José Poly- 
carpo d'Asevedo, se então fugisse, seria retido no 
cinto de tropa que cercava o palácio e a quinta. 
Não fugiu : ficou intacto, por que a sua cumplicidade 
não tinha ainda sido descoberta nem suspeitada. 
Quando os cúmplices, forçados pela tortura o de- 
nunciaram, José Polycarpo havia desapparecido. 
Toda a sua parentella foi presa, e os mais próximos 
parentes soffreram tormentos para lhe delatarem a 
paragem. Como as dores eram atrozes, a infâmia da 
denuncia seria desculpável; mas nenhum dos tor- 
turados sabia o destino do condemnado nem pode- 
ria proveitosamente inventar-lh'o. Sebastião José de 
Carvalho devia sentir-se vexado na sua omnipotên- 
cia, e. espantado da inutilidade de tamanho premio 
offerecido a quem entregasse à justiça um regicida, 
de baixa extração, um facinora assalariado por 
poucas moedas, segundo disia a sentença. 

Os corregedores das comarcas e os ministros de 
Portugal no extrangeiro receberam ordens enérgicas 
de capturarem o fugitivo, acompanhadas dos signaes 
que poderiam denuncial-o.. Os corregedores pren- 
diam quantos desconhecidos transitavam nas pro- 
víncias, por que as informaçoens da figura do reo 
não o estremavam notavelmente d'outra qualquer 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



figura. Esses presos innocentes eram remettidos 
côrle com algemas; e, depois de examinados pc 
quem conhecia José Polycarpo, eram soltos. 

Nos Olivaes, povoação próxima de Lisboa, havia 
parentes do regicida que, uma vez, receberam de 
mão incógnita um bilhete com a noticia de que Po- 
lycarpo estava de saúde e em segurança. Receosos 
de que o bilhete fosse uma insidia, immediatamente 
o apresentaram á justiça. Esta zombaria deveria en- 
furecer o ministro. 

Em Hespanha e França não descançavam os 
agentes do reino, official e extra-officialmente, uns 
por dever, outros por ambição dos dez mil cruza- 
dos, de farejarem José Polycarpo. Nove meses de- 
pois das execuçoens de Belém, correu em Lisboa, 
por participação de 18 d'agosto, a noticia de ter 
sido capturado em Perpignan José Polycarpo, e a 
27 do mesmo mez o duque de Choiseul, primeiro 
ministro de Luiz xv, ofíiciava ao conde de Merle, 
embaixador em Portugal, que havia sido preso em 
Perpignan um portuguez que se disia ser José Po- 
lycarpo, um dos assassinos d'el-rei D. José. Recom- 
menda-lhe que o communique ao conde de Oeiras, 
e lhe diga que o prezo estava ás suas ordens; que, 
se el-rei queria que o conduzissem a Lisboa para 
ser alli justiçado, conforme merec*, desse o conde 
de Oeiras as providencias que julgasse necessárias 
para ser transferido. Em 11 de setembro o conde 
de Merle participa ao duque de Choiseul que com- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 57 



municára ao conde de Oeiras a prizão do individuo 
que se dizia ser José Polycarpo, e o conde, com 
tal noticia, ficara muito abalado e dera mostras de 
grande satisfação e agradecimento. Acrescenta o 
conde de Merle que, por essa occasião, tivera com 
o conde de Oeiras uma longa conferencia sobre o 
desgraçado acontecimento dos tiros, e que era in- 
comprehensivel que motivos tão frívolos como os que 
o conde lhe havia apontado, houvessem arrastado as 
cabeças da conjuração a perpetrarem um crime tão 
horrendo. (Quadro elementar das relaçoens po- 
liticas E DIPLOMÁTICAS DE PORTUGAL pelo VÍSCOnde 

de Santarém, t. vi, pag. 158, 160, 164.) Em 25 do 
mesmo Setembro, o embaixador conde de Merle par- 
ticipa que o conde de Oeiras o tinha procurado para 
lhe significar da parte d'el-rei seu amo o "quanto 
aquelle soberano ficava penhorado com os testemu- 
nhos de amisade que sua magestade christianissima 
lhe tinha dado na occasião da prisão de José Poly- 
carpo, etc. (1d. pag. 168.) 

A' vista das peremptórias affirmaçoens do duque 
de Choiseul, o conde de Oeiras, não contente com a 
remessa do prezo, mandou a Perpignan os esbirros 
bem escoltados, os competentes ferros, e pessoas que 
conheciam José Polycarpo. Tirou-se o prezo da sua 
masmorra, e houve um grande espanto e desgosto 
quando os peritos disseram que tal individuo não 
era Polycarpo nem cousa que o parecesse. E o prezo, 
que era afinal um doudo de singular espécie, gri- 



58 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



tava que sim, que era elle o tal Polycarpo que ati 
rara ao rei. Os emissários portuguezes restituíram 
o mentecapto ao governador da praça, e desanda 
ram para a pátria, portadores da infausta nova a 
conde de Oeiras. governador participou ao duqu 
de Choiseul que as justiças portuguezas affirmavam 
que o preso não era o regicida, e o duque, em 23 
de outubro do mesmo anno de 1759, em despacho 
dirigido ao governador general de Perpignan, signi- 
ficava-lhe ser muito para admirar que o governo 
portuguez afíirmasse não ser José Polycarpo o prezo 
retirado, quando o mesmo prezo confessava que o 
era ! E ordena-lhe que por bem ou por mal o obri- 
gue a confessar quem é. Quer dizer — que o met- 
tesse á tortura. (Quadro Elementar, tom, vi, pag. 
171). 

Parece que Polycarpo de Azevedo tinha esqueci- 
do no transcurso de treze annos. Sem fundamento 
algum, dizia-se que um fidalgo titular refugiara na 
sua casa em Lisboa, por espaço de trez annos, o 
condemnado, e depois o passara para a republica 
de Genebra onde senão admittiam concordatas de 
reis. marquez de Pombal decerto despresava essa 
atoarda popular, ou a considerava cavillação dos 
protectores suspeitos de José Polycarpo. Se elle des- 
cobrisse o fidalgo que dera agasalho e evasiva ao 
familiar de D. José Mascarenhas, arrancar-lhe-ia o 
segredo na polé, ou nas lobregas cavernas da Jun- 
queira. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 59 



* 



Decorridos, porém, treze annos, em setembro cie 
1772, mr. de Montigny, embaixador de França em 
Portugal, participou á sua corte que o marquez de 
Almodovar tivera uma longa conferencia com D. Luiz 
da Cunha á cerca do supposto Polycarpo, que havia 
sido preso em Badajoz. (Quadro Elementar, tom. 
vm, pag. 37). aviso que viera a Portugal da exis- 
tência de José Polycarpo em Espanha já cá estava 
desde junho. embaixador recebia muito retarda- 
das as informações. Soube o marquez de Pombal, 
n'aquelie mez, que nos arrabaldes de Sevilha estava 
o flagello das suas impaciências, aquelle José Poly- 
carpo que zombara tantos annos das suas pesquisas. 
Em 13 de junho de 1772 escrevia elle, com palpi- 
taçoens de jubilo, a seguinte requisitória : 

Sebastião José de Carvalho e Mello, marquez de Pombal, 
conde de Oeiras, ministro e secretario do estado dos ne- 
gócios do reino, inspector gorai do real erário, e n'elle 
logar tenente junto á real pessoa de el-rei meu senhor, al- 
caide-mor de Lamego, senhor donatário da villa de Oei- 
ras, Carvalho e Cercosa, e commendador das commendas 
de S. Miguel das Três Minas e de Santa Marinha da Matta 
de Lobos na ordem de Christo, etc. 

Havendo n'esta corte informações de que nos districtos 
de Cavezes do senhor S. João, junto a Sevilha, se acha José 



60 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Polycarpo, um dos mais abomináveis réus de alta traiçà 
commettida contra el-rei meu senhor, e achando-se na me 
narchia de Espanha e em todos os estados soberanos da eu 
ropa, estabelecidas, desde o tempo d'aquelle execrando de 
licto, ordens circulares dos seus respectivos monarchas 
príncipes soberanos para a prisão e remessa dos sobredito 
atrocíssimos e escandalosíssimos reos : requeiro da parte 
mesmo senhor, e da mesma peço por merco aos senhores go- 
vernadores e magistrados da referida cidade que, sendo-lhes 
esta apresentada pela pessoa que a mostrar façam prender 
com as cautellas indispensáveis em similhante caso, o sobre- 
dito reo José Polycarpo, antes que se possa esconder, ou au- 
sentar, e que, precedendo a necessária faculdade do senhor 
rei catholico, o remetiam ás fronteiras d'este reino, com pré- 
vio aviso para n'elle ser recebido, na forma estabelecida 
pela concordata, que subsiste entre as duas cortes para a 
prisão e remessa dos criminosos de delictos atrozes. Em fé de 
que passei a presente, por mim assignada e sellada com o 
sêlio grande das armas reaes. 

Dada neste sitio de Nossa Senhora da Ajuda em 13 de junho de 1772 

Marquez de Pombal. 1 

Transpira deste documento a insoffrida urgência 
sanguinária do marquez. Descurou as praxes e os 



1 O processo instaurado em Badajoz e a carta requisi- 
tória do ministro são documentos encontrados pelo snr. Fran- 
cisco Palha, primeiro official archivista do ministério do reino. 
A carta foi publicada em o Post-Scripium da Historia do 
reinado de el-rei D José, ftom. ii, pag. 647) pelo snr. So- 
rianò. 






PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 61 



estylos judiciários para tornar mais momentosa e 
pessoal, mais estrondosa e solemne a captura do 
reo d'alta traição. Cumpria ás justiças subalternas 
esta diligencia, ou á intendência geral da policia 
que elle creára, ou ainda mais curialmente á inter- 
ferência do ministro representante de Espanha. Con- 
jectura-se que o decrépito marquez, ao dictar a carta 
requisitória, ringia os colmilhos, afiava as garras, 
e sentia não poder ir em pessoa tratar aquelle ne- 
gocio. 

A justiça de Badajoz procedeu honradamente, 
capturando o suspeito José Polycarpo, com o fim de 
lhe instaurar um processo de identidade da pessoa 
antes de o enviar ao marquez. E' nalural que de 
Lisboa sahisse para Espanha alguém que tivesse co- 
nhecido o confederado do duque cTAveiro, e não po- 
desse de prompto decidir se o preso era com effeito 
José Polycarpo, cujas feiçoens, ao fim de treze annos, 
deviam estar muito alteradas. certo é que o pro- 
cesso corria os seus tramites, quando um padre João 
Sanches, de Sevilha, fez saber ás justiças de Barce- 
lona que o preso processado não era quem lá sup- 
punham; por quanto, no dia 2 de abril cVaquelle 
anno de 1772, tinha morrido no hospital da caridade 
de Sevilha, tisico, um homem que elle confessara, e 
lhe dissera ser o que tentara matar D. José, em 3 
de setembro de 1758. E accrescentava o confessor 
que esse homem vivera nos subúrbios da cidade 
trabalhando n'uma horta, e lhe contara as angustias 



62 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



que soíirêra para fugir á aíllictiva morte a que fora 
condemnado. Em vista da qual declaração, o preso 
processado foi solto, e o processo enviado ao mi- 
nistro que tragara esta nova pirraça da sorte. Aquelle 
malvado José Polycarpo cVAsevedo, praticara a infâ- 
mia de morrer tysico no hospital devendo morrer 
queimado na fogueira! Ousar morrer de tubérculos, 
quando Sebastião José de Carvalho o mandava mor- 
rer assado! Ninguém amolgàra tão rijamente a phi- 
laucia ao velho carnifice ! Persuado-me, todavia, que 
o defuncto Polycarpo do hospital de Sevilha foi mera 
e pia fraude do padre hespanhol. Desde a expulsãc 
dos jesuítas e do supplicio de um sandeu chamadc 
Malagrida, D. José e o seu ministro foram conside- 
rados atheus pela Hespanha catholica. marquez 
era de mais a mais politicamente odiado pela sua 
arrogância patriota encostado ás armas de Ingla- 
terra. A meu ver, o padre João Sanches, sabendo que 
se processava em Badajoz o suspeito regicida, jul- 
gou ser esse o verdadeiro; e, afim de o salvar, inven- 
tou que confessara e vira morrer no hospital de Se- 
vilha o authentico José Polycarpo de Asevedo. Mas 
o que morreu "em Sevilha era tão José Polvcarpo 

como o retido em Perpisnan, como o processado em 
r £19 GUp OblJJP Ou" jSbjsv' 

\)z, e como vários outros que tiveram a casual 



•desgraça de possuir um. nariz mais ou menos seme- 
lhante ao do conjurado dos Mascarenhas. 

Ora, José Polycarpo de Azevedo, nesse tempo 
existia em Portugal cTonde nunca sahira. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 63 



•#* 



Conheci ha vinte e seis annos, no Porto, um gen- 
tilissimo rapaz, bacharel formado em direito, cha- 
mado Valentim de Faria Mascarenhas Lemos. Era 
louro, typo do norte e um farto bigode guiado até 
ás orelhas, largo de espáduas, e um relançar d'olhos 
sinistro. Elle e seu irmão Alexandre Mascarenhas, 
também formado, tinham adquirido a fama lendária 
dos Lobos, do Chico Ilhéu e do Lyra. De Valentim 
contava-se que matara um «futrica» alem da ponte 
com uma paulada em noite de tropa. Valentim não 
negava o facto e explicava-o honradamente, sem ja- 
ctância. futrica forçara-o a optar entre matar ou 
morrer. meu amigo evâdiu-se pela ponta mais obvia 
do dilemma, deixando o adversário na via d'outras 
existências extra-planetarias. 

Acaso fallavamos um dia nas estradas pittores- 
cas, ladeadas de abysmos alcantilados da província 
de Tras-os-monles, e perguntou-me Valentim se eu 
conhecia os Padroens da Teixeira na estrada que 
vai de Amarante á Régua. Depois, escutando com a 
sua attençâo muito enlevada de surdo, que era, as 
minhas reminiscências d'aquelle espinhaço da serra 
do Marão, disse-me que seus pais e avós por alli ti- 
nham vivido e morrido em uma caza que está ás 
cavalleiras do fragoédo nos espigoens da montanha 



64 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



onde chamam Padroens da Teixeira. Eu sabia ond 
era. Eslá alii a poesia dos pavores supersticiosos 
Resvalam umas escarpas crespas de rochas socavada 
pelos córregos. Sobre essas barrocas dependuram-s 
penedias acastelladas que parecem ir rolando d 
espinha das cordilheiras. Os carvalhos hirtos, des 
folhados e retorcidos que vegetam das fisgas do 
penhascal, reverdecem quando o ardor do estio os 
desabrocha e queima com a mesma lufada de fogo. 
No inverno a torrente do rio Teixeira, lá no concavo 
fundo, referve, caxôa e estorce-se como uma serpente 
em cujas escamas verde-escuras não rutila uma fle- 
xa do sol. A torrente galga o penedio das margens 
rugindo a espaços como trovoadas longínquas. Aquel- 
las solidoens são como um pedaço de globo em que 
se estão germinando n'um silencio pavoroso crea- 
çoens monstruosas. Eu passara por alli uma vez 
em uma noite eléctrica de agosto, quando as faíscas 
se cruzavam abaixo dos meus pés, na voragem, onde 
abriam cavernas luminosas, e os trovoens pareciam 
o estampido d^aquelles morros que se despedaça- 
vam uns de encontro aos outros. Lembra-me ver en- 
tão no topo da serra uma casa enormemente grande 
ao lampejo de um relâmpago que lhe dava proje- 
çoens de sombras enormes. Era a casa dos avôs de 
Valentim Mascarenhas. 

Depois, contou-me elle que seu avô viera para 
alli, porque tinha sido um dos condemnados á morte 
quando D. José i foi ferido; que estava em Azeitão 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 65 



no palácio ducal quando o duque foi prezo; que es- 
tivera escondido algum tempo na corte em casa de 
um fidalgo, e de lá passara para a província de 
Traz-os-Montes, depois de ter queimado a cara com 
vitríolo para não ser conhecido. Que edificara uma 
choça no alto da serra da Teixeira á beira do cami- 
nho, e abrira uma taverna frequentada por almocre- 
ves. Depois, casara com uma jornaleira de uma al- 
deia da serra, e com muito trabalho e algum di- 
nheiro de empréstimo augmentara a cabana e abrira 
uma estalagem onde pernoitavam os recoveiros no 
inverno quando a estrada pelo Marão era intran- 
sitável por causa das neves. Contou que este 
casal de estalajadeiros teve filhos ; e chegara a 
grande velhice, sem que a mulher soubesse com 
certeza a naturalidade do marido, nem que elle ti- 
nha um nome differente do que lhe dera; mas que, 
pouco antes de morrer, lhe segredara o seu nome 
e lhe pedira nunca o descobrisse, com medo de que 
seus filhos ainda soffressem perseguição. marquez 
! de Pombal já tinha morrido; os Tavoras tinham con- 
seguido rehabilitar-se; mas o filho do duque de Aveiro 
e dos plebeus do seu grupo não tinham conseguido 
a commiserapão da rainha. E' de suppor que este 
reo do sacrílego attentado assim procedesse caute- 
losamente aconselhado por quem lhe dera refugio 
em Lisboa. estalajadeiro dos Padroens da Teixeira — 
já o previram decerto — era José Polycarpo de Aze- 
vedo. Perguntei a Valentim Mascarenhas se seu avô 



66 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



usara o appellido Mascarenhas. Disse que não; qu 
seu pai foi quem deu aos filhos esse apellido por 
ter ouvido dizer á viuva de Poiycarpo que seu ma- 
rido era ainda descendente por bastardia de uns fi- 
dalgos de Lisboa assim chamados. E não duvido, 
por que todos os marquezes de Gouvea de quem te- 
nho alguma noticia foram muito prolíficos, e, na sua 
descaroada soberba, não consentiam que os illegi- 
timos havidos em mulheres ordinárias se assignas- 
sem Mascarenhas. Já o pai de Valentim foi um pro- 
prietário abastado no Douro. Em uma quinta comprada 
e não herdada em S. Miguel de Lobrigos morreu ha 
annos o meu amigo Valentim, no vigor da idade, 
quando era juiz de direito, aposentado por causa da 
surdez. Deixou viuva e filhos. Esta senhora é irman 
do snr. Lopes Mendes, deputado na legislatura pas-j 
sada, um illustre professor agrónomo que residiu mui- 
tos annos em Goa. 



* 



Desde que Valentim Mascarenhas me referiu a 
localidade em que seu avô vivera e morrera incó- 
lume, entrou no meu espirito uma conjectura que eu 
não podia formular em facto histórico, á mingua de 
probabilidades fundadas, se quer na tradição. A mi- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 67 



nha fantasia era esta: o alcantil da serra, cha- 
mada Padroens da Teixeira, está incluso no senho- 
rio da Teixeira que pertencia a Gonçalo Christovão, 
preso muitos annos no forte da Junqueira. Figurou- 
se-me que José Polycarpo, sem uma poderosa pro- 
tecção, não ousaria ficar no reino, nem tão pouco, 
fugindo do Alemtejo, iria caminho de Traz-os-montes, 
sendo-lhe mais rápida e segura a fuga para Espa- 
nha. Além d'isso, conforme a tradição de Valentim, 
seu avô tinha estado escondido em Lisboa antes de 
passar á província; e é bem de crer que a influen- 
cia de quem o acoitou na capital o protegesse em 
Traz-os-montes. 

Que a victima do conde de Oeiras, o preso Gon- 
çalo Christovão, devia ser das relaçoens do duque 
He Aveiro e dos Tavoras, affirmava-m'o o paren- 
tesco. Por seu pai, o senhor da Teixeira, tinha san- 
gue de Tavoras, e, por sua mãe, procedia dos pri- 
maciaes Mascarenhas, por que sua 5. a avó, D. Mag- 
dalena de Athaide era irman de D. Fernando de 
Mascarenhas, 1.° conde da Torre. Destes vínculos 
de sangue não se podia rigorosamente inferir que o 
inimigo de Pombal, por motivos que vou já expor, 
se confederasse com os conjurados de 3 de setem- 
bro; mas não seria improvável que o offendido e 
bondoso fidalgo desse guarida a um dos afflictos 
emmissarios da malograda tentativa ; sendo de sup- 
pôr que, se ella triumphasse, Gonçalo Christovão 
folgaria com a queda do ministro Carvalho que o 



68 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



roubara descaradamente por um processo que vo 
contar aos curiosos. 

Sebastião de Carvalho e Mello, avô do marquez 
de Pombal, teve uma vida airada e longa por que 
viveu cento e dez annos. Em Coimbra, onde estu- 
dou algum tempo, ganhou a celebridade de jogador 
frenético. Como ficasse herdeiro de seu tio Paulo de 
Carvalho, foi viver na casa da rua Formosa, e fez-se 
capitão de cavallaria. Era grande dissipador, e es- 
tava a empobrecer no fim da vida, quando, por 
suggestoens de seu filho, Manoel de Carvalho de 
Athaide, genealógico muito fraudulento e falsifica- 
dor, lançou mão de expedientes cavillosos para uzur- 
par aos senhores de Fermedo, da Teixeira e do Bom- 
Jardim, uns vínculos da caza do marquez de Montal- 
vão, de que era cabeça um palácio que o terramoto 
destruiu, em Lisboa, defronte da egreja do Carmo. 

Para intentar a reivindicação d'esses vínculos, Se- 
bastião de Carvalho tinha de mostrar com certidoens 
authenticas que sua avó materna D. Joanna de Mes- 
quita era neta de Gaspar Leitão filho de Gonçalo 
Pires Coelho e D. Violante de Magalhaens. Se pro- 
vasse ser quinto neto d'esta D. Violante, succedia no 
vinculo instituído por Pedro de Magalhaens e seu 
filho Simão de Mello. Mas a prova documentada com 
as certidoens era inexequível, por ser fantástica. 
Restava-lhe o recurso das genealogias manuscriptas 
que então gosavam uma certa fé, conforme o cre- 
dito e a authoridade dos linhagistas. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 69 



Soccorreu-se pois Sebastião de Carvalho do fa- 
vor de alguns famosos nobiliaristas das suas rela- 
çoens, e não obteve sem vergonhosos condicionaes 
pie nos seus cartapacios o considerassem quinto 
neto de D. Violante de Magalhaens uns genealógicos 
de masso e mona chamados Gaspar Barreto, Bel- 
chior d'Andrade Leitão, José Freire Montarroyo Mas- 
carenhas e D. Afíbnso Manoel de Menezes. Faltava- 
lhe, todavia, o mais authorisado e conspícuo genea- 
logista do século, e o único ainda hoje benemérito 
de fé : era Manoel de Sousa da Silva, da família dos 
Alcoforados, capitão-môr de Sancta Cruz de Riba-Ta- 
mega x . Inculcaram a Carvalho a urgência do teste- 
munho do capitão-mór no duvidoso pleito, pelo cre- 
dito que o seu depoimento merecia nos tribunaes, á 
falta de certidoens peremptórias e indiscutíveis. 

Sahiu para a província transmontana Manoel de 
Carvalho de Athaide em demanda do octogenário 
Manoel de Sousa da Silva. que se passou entre 
elles está estampado n'uma Petição de Revista no 
depoimento do genealogista de Riba-Tamega, la- 
vrado no processo que Sebastião de Carvalho e 
Mello em 1720 movia contra o senhor da Teixeira 
e Fermedo, Bernardo José Teixeira Coelho de Mello 
Pinto da Mesquita. Disia o capitão-mór : que era 



1 Veja-se o grande conceito em que é tido por D. Antó- 
nio Caetano de Sousa, Hist. geneal. t. i, pag. 163. 



70 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



verdade que Manoel de Carvalho de Athaide víerc 
a sua casa delle testemunha e lhe mostrara umt 
inquirição de testemunhas em que se justifican 
seus antepassados ser Gaspar Coelho filho de Gon 
calo Pires Coelho e de D. Violante de Magalhaé\ 
e lhe mostrou varias ceriidoens de genealógicos 
corte que affirmavam o mesmo, pedindo a elle tes 
temunha lhe quisesse passar uma certidão na fc 
ma dJaquelle instrumento e quisesse pôr nos seu 
livros o dito Gaspar Leitão por filho de Gonçalo Pi- 
res Coelho e de D. Violante de Magalhaens. Ao que 
elle replicou disendo : que nos seus livros não havia, 
de pôr coisa alguma que não achasse em papeis au-. 
thenticos ; e que aquelles que elle lhe mostrava, nem 
eram nem tinham para elle aquella fé que genui-> 
namente era necessário. E, depois de vários argu- 
mentos que tiveram entre si, o levara ao seu escri- 
ptorio e lhe mostrara a elle Manoel de Carvalho ser 
o tal Gaspar Leitão filho de João Gomes Leitão e de 
sua mulher D. Feliciana Coelho Rebello, e não do 
dito Gonçalo Pires Coelho nem de D. Violante de Ma- 
galhaens, como elle queria. E que então, d vista 
destes papeis, o filho do auctor lhe pediu com mui- 
tas instancias quizesse passar -lhe a certidão que lhe 
pedia; por que esta não era para offender ninguem y 
mais que para entroncar bem a sua família, a qual 
elle lhe passou dizendo que vira ser o dito Gaspar 
Leitão filho de Gonçalo Pires Coelho e de D. Vio- 
lante de Magalhaens em «papeis authenticosy> que o 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 71 



dito Manoel de Carvalho de Athaide filho do auctor 
lhe mostrara; mas que debaixo da sua consciência 
declarava que nunca em nenhum livro ou outro pa- 
pel authentico dos que tinha visto, achara nem vira 
que o dito Gaspar Leitão fosse filho do dito Gon- 
çalo Pires Coelho, e somente achava ser filho do 
dito João Gomes e de sita mulher D. Feliciana Coe- 
lho Rebello \ 

Gomo tenho a satisfação de possuir em dous to- 
mos o Nobiliário das geraçoens de Entre Douro e 
Minho por Manoel de Sousa da Silva, posso commu- 
nicar ao leitor a passagem que o incorruptível capi- 
tão-mór de Riba-Tamega mostrou a Manoel Carvalho 
d'Athaide. 



1 Convém saber que os outros genealógicos não depo- 
seram mais favoravelmente ao salteador dos vinculos do do- 
natário da Teixeira. José Freire Montarroyo disse que : 

«Em um livro de Manoel Ferreira Botelho, que consta de 
familias encadernado em pergaminho fallando dos Coelhos 
da Ilha de Mayo, chegando a tratar do sobredito viu á mar- 
gem do tal livro as palavras formaes : — Este Gaspar Leitão 
que se diz filho segundo e da segunda mulher de Gonçalo 
Pires Coelho Jé noticia dada por Manoel de Carvalho de 
Athaide e Mello, acere scentado por sua lettra no meu livro 
quarto em titulo de Coelhos» . 

Fr. Gaspar Barreto depõe assim : 

«Que Manoel de Carvalho d'Athaide, filho do autor 
apertou com elle testemunha notavelmente importunando-o 
e buscando-o nas occasioens mais occupadas para que nãa 



72 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Tractava-se dos Senhores de Felgueiras e Vieir 
e das quintas de Ser gude e Simães. 

De Gonçalo Pires Coelho que Manoel de Garvalh 
queria introncar na sua família como pae de Gasp 
Leitão, diz Manoel da Silva : 



16. Gooçalò Pires Coelho succedeu a seu 

pai no senhorio de Felgueiras e Vieira 
e na quinta de Sergude onde morreu 
e viveu pelo tempo d'el-rei D. AíTonso 
v. Cazou com D. Maria de Souza, fi- 
lha de Pedro de Souza Borges, alcaide 
mor de Bragança e tiveram filhos : 

17. Martim Coelho que mataram vindo da 

índia cora o viee-rei D. Francisco 






fosse tão viva, nem tão livre a averiguação do dito instru- 
mento, nem podesse elle testemunha recorrer aos livros pró- 
prios, e que havia pouco mais de um mez lhe pedira que 
quizesse jurar nesta cauza na forma da certidão que elle tes- 
temunha havia passado; e disendo-lhe elle testemunha que 
não havia de jurar tal, lhe pediu o dito Manoel de Carvalho 
que ao menos não jurasse por parte do reo ; mas elle testemu- 
nha pelos remorsos de sua consciência e preceito da obediên- 
cia, imposto pelo seu Prelado, se achou precisado a jurar* 

Belchior de Andrade Leitão jurou : 

«Que Manoel Carvalho de Athaide filho do autor veio a 
caza d'elle testemunha, onde viu os seus livros de famílias 
para o intuito d'esta mesma causa, e n'elles não achou que 
houvesse tal Gaspar Leitão, filho de Gonçalo Pires Coelho, 
.senhor de Felgueiras». 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 73 







(TAlmeida no anno de 1510 e que 




teve filho natural : 




18. António Coelho. 


17. 


D. Briolanja d' Aze vedo que casou com 




Gonçalo Rodrigues de Magalhaens. 




Cazou segunda vez (Gonçalo Pires 




Coelho) com D. Violante de Maga- 




galhaens, filha de Fernão de Maga- 




lhaens, e teve 


17. 


Ayres Coelho 


17. 


D. Filippa, que foi abbadessa no mos- 




teiro de Amarante. 


17. 


D. Joanna de Azevedo que nâo casou. 




E teve naturaes em Elena Mendes : 


17. 


Duarte Coelho 


17. 


Christovão d'Azevedo 


17. 


Isabel Coelho. 



Claro é que o senhor donatário da Teixeira, Gon- 
çalo Pires Coelho nem da esposa Violante de Maga- 
llhaens nem da manceba Elena Mendes teve algum 
filho chamado Gaspar Leitão. 

genealogista fez mais: mostrou-lhe nos seus 

I papeis que este Gaspar Leitão havia sido um mero 

; escrivão na villa da Feira, cazado com uma Cecília 

Mello, e nada tinha que ver com os senhores de 

Fermêdo. 

Sebastião de Carvalho e Mello perdeu a demanda; 
mas seu neto vindo com embargos, instaurou-a de 
novo contra Gonçalo Christovão Teixeira Coelho, fi- 
lho de Bernardo José Teixeira que destrinçara as. 
torpes fraudes da genealogia dos descendentes de 



74 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



um padre Sebastião da Matta-Escura e da pret 
Martha Fernandes. 

E' escuzado preambular com grandes phrazes 
indignação a sentença dos desembargadores. Sebas- 
tião José de Carvalho e Mello, logo que subiu ao 
ministério, consummou a ladroeira intentada pelo 
avô e pelo pai. Gonçalo Christovão valeu-se então do 
esclarecido lettrado de Villa Real, Francisco Xa- 
vier Teixeira de Mendonça para o defender de tão 
estranho assalto á sua propriedade. 

dr. Francisco Xavier escreveu .em 1747: Epi- 
logo memorial ou recopilação jurídica da causa que 
pende por embargos na casa da Supplicação; no 
mesmo anno outra Allegaçào de direito; e, em 1750, 
quando o usurpador era já ministro: Petição de re- 
vista que pediu Gonçalo Christovão Teixeira Coelho de 
Mello Pinto da Mesquita, da sentença proferida a 
favor de Sebastião José de Carvalho e Mello sobre os 
morgados que instituíram Pedro de Magalhães e seu 
filho Simão de Mello etc, Lisboa, 1750. 

Innocencio Francisco da Silva (Dicc. bibliog., tom. 
3. pag. 97) mencionando os escriptos de Francisco 
Xavier, accrescenta : O auctor depois marquez de 
Pombal, venceu a causa como era de espetar. Tanto 
o reo como o seu advogado foram prezos ao fim de 
alguns annos, aquelle em 1756 e este em 1758, e 
passaram-se muitos mais sem que se soubesse q des- 
tino que tiveram. 

Estava incorrectamente informado Innocencio. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 75 



Gonçalo Ghristovão foi preso em junho de 1761 por 
motivos muito diversos e estranhos ao litigio, e o 
doutor Francisco Xavier morreu degredado em Ben^ 
guella em fins do mesmo anno. Um amigo do conde 
de Oeiras, D. fr. João Queiroz, bispo do Pará, em 7 
de Setembro de 1762, escrevia ao governador do 
Maranhão que «os degredados do reino Martinho 
Velho e Gonçalo Christovão morreram entre Ben- 
guella e Angola.» Confundira Gonçalo Ghristovão com 
o doutor Francisco Xavier. Este foi o companheiro 
de extermínio de Martinho Velho, porque escrevera 
arrojadamente, sob a influencia d'aquelle homem no- 
tável, uma accusação contra o conde de Oeiras so- 
bre os desfalques que a fazenda real estava soffrendo. 
conde, em junta de ministros, propoz energica- 
mente que o lettrado fosse garrotado no forte da Jun- 
queira ; mas opposera-se um dos votos conseguindo 
a permutação em pena de degredo. E' uma historia 
longa e intrincada que deve ler-se ti As prisoens da 
Junqueira, pelo marquez de Alorna, um opúsculo reim- 
presso em 1882, desde pag. 35 até 45 da l. a edição 1 . 



1 O editor destas Prisoens da Junqueira, dá-nos assim 
noticia da forma do manuscripto : «E' um caderno em 4.°, 
ainda bem conservado, mas que mostra ter-se feito d'elle 
muito uzo. A lettra é perfeitamente bem formada e legível. 
Foi escripto com tinta vermelha que hoje se acha algum 
tanto desbotada. Esta circumstancia é digna de explicar-se. 
Faquellas prisoens onde por tantos annos gemeu a innocencia 



76 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Quanto ás prisoens de Gonçalo Christovão e 
seu advogado, não as motivou o pleito do vincule 
A questão acabara com a posse; e, se algum resser 
timento ficou nos recôncavos negros do coração de 
vencedor, como é natural em tão ferina índole, as 
causas ulteriores não careciam desse fermento. 

Este homem, quando encontrava o administrador 
d'um vinculo a estorvar-lhe a usurpação, matava-o ju- 
ridicamente. Na casa de Athaides estava o morgadio 
de Carvalho. Sebastião José, o descendente do pa- 
dre Sebastião da Matta-escura, dizia descender do 
instituidor D. Bartholomeu Domingues, e n'essa qua- 
lidade impoz que o senado de Coimbra o Encabeças- 
se no morgadio vago por morte do conde de Athou- 
gia justiçado em 13 de janeiro de 1759. E depois 
como viram na carta requisitória para a prisão de 
José Polycarpo, dizia-se pomposamente — Senhor do- 
natário de Carvalho. 

Na Historia de D. José i, diz o snr. Soriano que 
ignorava se se dava á existência de vinculo na casa 



e o merecimento, osprezospela maior pane eram privados de 
tinteiro, talvez pelo receio de se relacionarem uns com os outros 
ou com suas famílias. O autor, porém, d'esta Memoria excogi- 
tou um meio que muito bem lhe sortiu, para haver tinta, e 
foi — lavar os pés das cadeiras que lhe deram pintadas de 
vermelho com o vinagre que lhe ia ao- jantar, e foi com esta 
tinta que elle escreveu a historia das prisoens, isto é, das 
crueldades, tormentos e provaçoens que soífreu e viu soífrer» . 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 77 



de Athouguia. Com toda a certeza existia. Em 28 de 
novembro de 1689 passou o senado de Coimbra carta 
de nomeação do conde de Athouguia D. Jerónimo de 
Athaide para administrador do morgado e albergaria 
da Villa de Carvalho, cuja administração vagara 
pelo fallecimento de seu pai D. Luiz d'Athaide. A 
carta é passada por Gonçalo Moraes da Serra, escri- 
vão e juiz e vereadores a quem a nomeação perten- 
cia pela instituição do vinculo. (Veja índice chrono- 
logico dos pergaminhos e fomes existentes no Archi- 
vo Municipal de Coimbra, pag. 72 e 73). Já o pai 
do conde de Oeiras quizera espoliar d'este morga- 
dio de Carvalho os Athaides como ao senhor da Tei- 
xeira do morgadio de Montalvão. 

O conde de Athouguia padeceu a morte affron- 
tosa que sabem no dia 13 de janeiro, e a 19 de fe- 
vereiro Sebastião José de Carvalho — já ministro 
quando o conde de Athouguia foi nomeado adminis- 
trador do vinculo em 1756 — era chamado à posse 
do vinculo do conde garrotado trinta e seis dias 
antes. 

Encabeçado no morgadio, para que depois nunca 
mais sahisse de sua casa, esbulhou o senado do di- 
reito que lhe assistia de o nomear, conforme á dis- 
posição do instituidor. A carta regia de 9 de janeiro 
de 1770 diz... «para que regular e perpetuamente, 
na forma da lei do reino, continue nos descendentes 
legítimos do dito conde de Oeiras em cuja linha pre- 
sentemente está, etc». A abjecta adulação, se não 



78 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



foi imposta violência, do senado de Coimbra foi as- 
sim galardoada pelo successor do conde d'Athou- 
guia. Em março de 1759 ordenou elle que picassem 
as armas dos Athaides e esculpissem as suas nos 
padroens do morgadio. 

Este vinculo rendia aos senhores de Athouguia 
590$000 réis, muito pouco em relação ao que podia 
render, se o morgado obrigasse os foreiros; mas o 
conde de Oeiras para ordenhar. a vaca até eila dar 
o sangue, obteve em 1767 um alvará que lhe con- 
cedia a faculdade de nomear um ministro de lettras 
por elle pago para juiz privativo da cobrança dos 
foros e raçoens do morgado de Carvalho, que os 
rendeiros lhe devessem na forma do foral e antigo 
costume. Imaginem quanto este amigo do povo faria 
render o vinculo ! 

E o mais é que o conde de Oeiras gosava-se do 
morgadio do senhor da Teixeira e ria-se das certi- 
doens dos linhagistas. 

marquez de Montebello indusia Sebastião José 
de Carvalho a que se fizesse genealogista ; e elle, 
contando o caso ao benedictino Fr. João de S. José 
Queiroz, sua creatura e depois sua victima, disia 
que respondera ao marquez : «Não, senhor, por que 
ficarei peor que alfaiate ou pedreiro; por que a es- 
tes homens se dá credito em juizo quando são cha- 
mados para louvados, e das certidoens de genealo- 
gias nenhum caso fazem os ministros.» Queria diser 
que os desembargadores riam das certidoens genea- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 79 



lógicas e sentenciavam a favor dos poderosos que 
as apresentavam. Cynico e impudentissimo biltre! l 



* 



Mas, se não foi o pleito, como decerto não foi, 
que rasâo houve para a captura de Gonçalo Ghristo- 
vão e de seu parente João Bernardo, trez annos 
depois do attentado de 3 de setembro? Por que 
lhes prenderam e sumiram dois creados três mezes 
depois do supplicio de Belém, e os não prenderam 
a elles ? Um bisneto de Gonçalo Ghristovão, a quem ha 
trinta annos interroguei sobre o facto incongruente, 
disse-me que havia um mysterio ignorado da famí- 
lia; mas a opinião do vulgo era a menos provável e 
um pouco lendária : que o conde de Oeiras, querendo 
casar uma filha com um filho de Gonçalo Christovão, 
senhor de Bomjardim, este motejara a pretenção di- 
zendo que os Carvalhos eram impróprios dos Jar- 
dins. Isto é inverosímil. Se o conde de Oeiras qui- 
zesse casar a filha no Bom-Jardim, não acharia es- 



i Memorias do bispo do Pará, pag. 147. Quanto ao 
<*uel procedimento do conde de Oeiras com este prelado hon- 
radíssimo, veja o Prefacio das Memorias. 



80 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



torvo deante do seu despotismo. Elle obrigava o 
pais a violentar o casamento das filhas. As sua 
noras foram violentadas. A mulher do filho Josi 
Francisco, aos quinze annos casada á força, repellii 
o marido do thalamo conjugal com a desesperada 
resolução de se deixar matar virgem. conde de 
Oeiras inclausurou-a no convento do Calvário de 
Évora, a ver se a redusia aos deveres phyloginios 
pela fome e pelos máos tratos. A filha de D. Vicente 
Monteiro Paim manteve-se inflexível. Nove annos sup- 
portou a reclusão, e sahiu, quando o marquez foi 
desterrado. marido repulso, a besta lasciva vendo 
que a não vencia, tinha exigido ao pai outra mu- 
lher. Annularam-lhe o casamento o núncio e o car- 
deal patriarcha, para o maridarem com outra mu- 
lher violentada, a filha de Nuno de Távora, e sobri- 
nha do marquez estrangulado. E emquanto o pai 
agonisava no calabouço da Junqueira, era a desgra- 
çada D. Francisca de Lorena arrastada ao altar 
para se ligar ao asqueroso conde da Redinha, que 
a outra intrépida creança repellira com asco x . 

Sempre preoccupado com ter sido causa da pri- 
são dos Teixeiras Coelhos a fuga de José Polycarpo, 
reli todas as correspondências diplomáticas da mi- 



1 D. Isabel Monteiro Paim cazou em 1779 com D. Ale- 
xandre de Souza Holstein, a sua paixão de infância, e destes 
amores românticos nasceu o i.° duque de Palmella. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 81 



nha escassa livraria, umas impressas outras inéditas, 
desde o attentado de 3 de novembro de 1758 até 
á queda do marquez em 1777; e, com espanto da 
minha ignorância ou da infidelidade da minha me- 
moria, achei no tomo vn do Quadro elementar das 
relaçoens politicas e diplomáticas de Portugal, pag. 
18, com data de 21 de junho de 1761, um despa- 
cho de Saint-Julien, agente de negócios em Portu- 
gal, para o duque de Choiseul, n'estes termos um 
pouco desordenados : que se tinham prendido qua- 
tro fidalgos com todos os seus criados, os quaes se 
achavam reclusos em diversos conventos da provinda 
do Alemtejo, e em algumas das prisoens de Lisboa, 
por haverem, segundo se dizia, favorecido a fuga 
de José Polycarpo um dos assassinos d'el-rei: eram 
os três fidalgos irmãos de Gonçalo Christovão Pe- 
reira (aliaz Teixeira) Coelho, representante de Egas 
Moniz, 

Provavelmente a versão do despacho está incor- 
recta ou o agente não percebeu a noticia. Gonçalo 
Christovão não tinha irmãos, nem os presos profa- 
nos eram recolhidos aos mosteiros. fidalgo do 
Bom Jardim tinha seis irmans : estas é que foram 
presas, em consequência de uma denuncia que vou 
referir. certo é que ou já estivesse preso como 
suspeito Gonçalo Christovão — o que se refuta — ou 
o fosse juntamente com as irmans, é incontestável 
que a sua captura está esclarecida pela fuga de José 
Polycarpo. 



82 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Um sobrinho de Gonçalo Christovão, cadete 
um regimento do Porto, apaixonara-se por uma cri 
lura qualquer cognominada a Roque, irman d'outr 
Roques que em Lisboa gosavam celebridade um ta 
piccaresca emparceiradas com a rapasiada fina. 
mãe (Veste cadete, prima do senhor da Teixei 
chegou a noticia affrontosa de que seu filho requ 
tava uma Roque para casamento. Outro seu fill 
João Bernardo correu alvoroçado ao Porto para d 
suadir o irmão do enlace vergonhoso; e taes coisa 
o cadete lhe disse da sua dignidade, que o irmão 
regressou a Villa Real a convencer a mãe conster- 
nada de que o mano jamais pensara em dar semi- 
lhante passo por cima das cinzas irritadas de seus 
avós. 

Poucos dias depois, é a tranquilla senhora outra 
vez aturdida com a nova de que o casamento se fa- 
ria, se não lhe acudissem com remédio extraordiná- 
rio e heróico. João Bernardo escreveu a seu tio Gon- 
çalo que vivia em Lisboa casado com sua prima I) 
Francisca de Noronha Manoel e Portugal. Pedia-lhe 
que recorresse a Sebastião José (os fidalgos disiam 
sempre Sebastião José — ellipse de menoscabo) para 
que o cadete immediatamente fosse preso e trans 
ferido para a índia. Uma boa mãe de raça antes 
queria o filho degredado na índia que matrimoniado 
com uma Roque. Gonçalo Christovâo, intendendo que 
o conde de Oeiras era pessoa idónea para uma agar- 
ração, expoz-lhe o caso com a competente rhetoricá 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 83 



heráldica. O conde, o democrata — segundo pregoam 
certos calumniadores de meetings e de gazetas — 
achou acertada a providencia summaria, pombalina, 
<\e capturar e desterrar o fidalgo que pretendia ca- 
sar com uma mulher da ralé. Dito e feito : o cadete 
foi mettido no Limoeiro, com promessa de ser ex- 
patriado para Goa. 

O preso, conhecendo os motores, jurou vingar- 
se. degredo cortava-lhe a carreira, e tirava-lhe 
a mulher amada. Era uma tyrannia acerba. A paixão, 
se o não absolve, modifica a infâmia da denuncia 
que desgraçou, a um tempo, a sua família toda. Foi 
€lle quem revelou, por intermédio de ministro su- 
balterno, que seu tio e seu irmão tinham protegido 
a fuga de José Polycarpo d'Azevedo; não denuncia- 
ria, porém, a paragem do homisiado por que a igno- 
rava. conde de Oeiras, o insigne velhaco, certo 
de que tinha a preza segura, não quiz proceder ao 
encarceramento de Gonçalo Christovão, e de João Ber- 
nardo que andava na corte, sem que o preso tivesse 
sabido não para o degredo na Ásia, mas para o 
Grão-Pará. Simularam uma sabida do delator para a 
Índia; porém, quando chegou ao cães, a náo tinha 
levantado ancora, e o juiz criminal que o conduzia, 
com a maior urbanidade, mandou -o sósinho reco- 
Iher-se ao Limoeiro. E o conde, com um sorriso, e 
a grossa pilada de estarrinho nos dedos e a luneta 
<le ouro fita no olho direito, disse a Gonçalo Chris- 
tovão que seu sobrinho ia para o Brazil, e estaria 



84 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



lá muito mais seguro do que na índia. E, com effei- 
to, foi até ao Maranhão K 

Dias depois, Gonçalo Ghristovão e seu sobrinho 
João Bernardo eram prezos e conduzidos ao Forte 
da Junqueira; e logo na primeira náo da carreira 
do Brazil, repatriou-se e appareceu na corte o ca- 
dete para cazar com a Roque e ser despachado ca- 
pitão de infanteria de Cascaes. Do tronco illustre 
dos gothicos senhores de Fermêdo, Sergude e Tei- 
xeira sahiu esta vergontea que, enxertada na Roque, 
deu fructos cuja podridão não conheço. tio e o 
irmão sei eu que foram encavernados em um dos 
dois cárceres peores. Eram desenove as masmorras, 
mais ou menos alumiadas, excepto duas em que a 
noite mal se differençava do dia. Em uma d'estas 
duas entraram os dous fidalgos transmontanos 2 . 



1 Não invento a grossa pitada do conde de Oeiras. Elle 
era um farto e sujo receptáculo de simonte. Um seu coevo, 
Francisco de Figueiredo, conta: «O nosso grande Pombal 
quando ia de Belém para Lisboa sempre parava á porta de 
uni estanco, e mandava a sua caixa com pouco dinheiro para 
lhe deitarem tabaco; em caza tinha nos bancos sobre fo- 
lhas de papel porçoens de tabaco de que se servia, e nas ca- 
sas onde residia em mais de um ou dous logares, como no 
seu gabinete e na secretaria, para onde pasmava logo que 
se erguia cedo». (Theatro de M. de Figueiredo, tom. iv, 
pag. 6W). 

2 As prisoens da Junqueira pelo marquez de Alorna 
pag. 70-74. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 85 



Refere o seu parente e companheiro de cárcere, 
marquez cTAlorna que o desembargador-carcereiro 
quiz obrigar os presos a reconhecer como sua uma 
carta sem examinar-lhe o conteúdo, confrontando, 
de longe, a lettra com outra que José Bernardo 
confessava ter escripto. Não posso conjecturar nem 
o Alorna iliucida o que a devassa queria inferir 
dessas cartas. Talvez algumas falsificadas referen- 
cias a José Polycarpo — communicaçoens do tio ao 
sobrinho, instrucçoens para a expatriação do con- 
demnado. Os dous presos sabiam que a suspeita era 
antiga no conde. Já em abril de 1759 dous criados 
de Gonçalo Christovão tinham sido presos e tratea- 
dos provavelmente para denunciarem a paragem de 
José Polycarpo. Assim o communica o conde de 
Merle ao duque de Ghoiseul: que se haviam pren- 
dido dous creados de Gonçalo Christovão pessoa de es- 
clarecido nascimento, cuja família tinha vindo para 
Portugal com o conde D. Henrique de Borgonha, fun- 
dador da Monarchia l . (Quadro elementar, t. vi, 
pag. 144). 

certo é que o desembargador Luiz de Men- 



1 Inexactidão que se desculpa á vaidade franceza. A 
familia de Teixeiras é anterior á monarchia portugueza. Os 
genealogistas vão até aos reis Ordonhos, e o conde D. Pedro 
chega a D. Mem Viegas e D. Thereza Rodrigues, deduzindo 
cinco geraçoens até ao primeiro que se chamou Hermigio 
Mendes da Teixeira. 



86 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



donça obrigou com sanguinárias ameaças Gonçalc 
Christovão a assignar uma folha em branco. Depois 
fez-se um grande silencio de quinze annos n'aquella 
sepultura. As irmans de Gonçalo Christovão, que ti- 
nham sido restituídas á liberdade, estavam na corte. 
Dm dia foram todas prezas de novo em conventos, 
por que o conde de Oeiras soube que se correspon- 
diam com o irmão mediante um creado do desem- 
bargador. marquez d'Alorna lembra-se com grati- 
dão deste rapaz que se chamava Domingos e era de 
Villa Real. E' de crer que o movessem á compaixão 
os dous fidalgos seus conterrâneos abatidos a tama- 
nha miséria. Domingos foi carregado de ferros e 
nunca mais se fallou d'elle. 

«Gonçalo Christovão — diz o marquez d'Alorna — 
com uma habilidade rara de mãos para trabalhar in- 
signemente em todos os officios, com uma vontade 
também nada vulgar para servir a todos, tem-nos 
sido de grande soccorro n'esta prisão, e continua- 
mente está empregado no serviço de algum de nó* 
para concertar o que se quebra e desmancha, e para 
quantas commodidades são possíveis.» Elle padecia 
asthma, gastralgias e uma cystite chronica. cirur- 
gião mandou-lhe beber o diurético cosimento de 
morangos ; mas o desembargador dava-lhe uma salsa 
parrilha muito antiga para se desfazer da grande 
porção d'ella que tinha envelhecido na cozinha do 
Forte. Economias. 

João Bernardo, que era poeta, fazia versos; e, 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 87 



para fazer alguma coisa mais útil, era o infermeiro 
dos doentes. 

Tanto elle como o tio resavam muito, — purifi- 
cavam a consciência, diz o Alorna. Estes descendentes 
de Pedro Coelho realmente necessitavam todos de 
purificar as suas consciências; mas não me parece 
justiceiro nem honesto que a Providencia divina — 
a dos castigos — fizesse o conde de Oeiras seu lo- 
gar-tenente na expiação dos Coelhos pelo sacrifício 
das duas victimas do denunciante marido da Roque. 



-*- 



Em 1777, Gonçalo Christovão, sua esposa, ir- 
mans e sobrinho recolheram a Villa Real. Levaram 
do Forte da Junqueira uma negra que os tratara 
com muita caridade nas suas fomes e doenças. Esta 
preta, de nome Joanna Maria, herdou de seus amos 
parte de uma casa apalaçada que voltou á família 
Teixeira Coelho, e foi depois vendida á família Ca- 
bral de Moraes. Ahi conheci ha trinta e dous annos 
um antigo e celebrado governador civil de Villa Real, 
chamado José Cabral Teixeira de Moraes que me con- 
tou esta lenda da negra. 

estalajadeiro dos Padroens da Teixeira ainda 
vivia; como a dor o não pôde matar quando soube 
que o seu salvador estava enterrado vivo ou morto, 



88 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



José Polycarpo (TAzevedo, prostrado aos pés de Gon 
calo Christovão, se então morresse, morreria bem 



NOTA 

Foi publicado, no próximo passado abril em Lisboa, um 
opúsculo anonymo intitulado Processos celebres do mar 
quez de Pombal. Faz menção muito succinta do processo 
pleiteado entre Sebastião José de Carvalho e Gonçalo Chris- 
tovão, e diz que nunca se soube, para onde G. Christovão sa 
hiu ou se morreu no Forte da Junqueira. O marquez d' Alorna 
nas Prisoens da Junqueira occupa-se extensamente de Gon- 
çalo Christovão e de seu sobrinho José Bernardo. Ambos 
elles sahiram em 1777 e morreram, passados aunos, na su 
casa de Villa Real. No tom. n (Notas) da Hist. de D José 
pelo snr. Simão Soriano vem a lista quasi exacta dos que 
sahiram do Forte da Junqueira, o entre estes estão os mencio- 
nados fidalgos de Traz-os-montes. A prisão do advogado Fran- 
cisco Xavier Teixeira de Mendonça foi motivada, como re- 
feri, por ter elle sido o redactor de uma representação contra 
Sebastião de Carvalho, apresentada a D. José por Martinho 
Velho que foi degredado para Angola juntamente com o advo- 
gado Francisco Xavier. O anonymo diz que o conde de Oei- 
ras foi agraciado com o titulo de marquez de Pombal em 1769. 
A data não é correcta. Esta mercê foi datada em 16 de se- 
tembro de 1770. O anonymo provavelmente guiou-se pela Re- 
senha das familias titulares do reino de Portugal, onde se 
encontra o erro. O opúsculo, sem desaire destas inadvertên- 
cias, tem merecimento. 



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h <Jt^mm 



r 5- J 




MARQUEZ DE POMBAL 




g Luiz da Cunha, por antonomásia o 
K Zteào dos embaixadores, no seu íis- 



% tamento politico, ou Caria ao prín- 
cipe D. José, aconselha este príncipe 
a escolher, quando reinar, para seu 
primeiro ministro Sebastião José de 
Carvalho, cujo génio paciente e espe- 
culativo, ainda que, sem vicio, um pouco diffuso, se 
acorda com o da nação. N'este juizo, ou superabun- 
dam ás inepcias ou as ironias. génio paciente de 
Sebastião José de Carvalho chega a invergonhar as 
paciências e humildades de S. João de Deus e dos 
sete martyres de Marrocos. Quanto á diffusào doesse 
génio em harmonia com o da nação, o juiso do dis- 



90 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



solulo e macrobio barregueiro de Paris jusliíicou- 
a concordância do génio nacional com a indole d 
Sebastião de Carvalho. 

D. João v e os ministros cardeal da Motta e Fi 
Gaspar nunca prestaram grande attenção aos alvi 
trffs de D. Luiz da Cunha. Como elle, já muito v€ 
lho, doudejava escandalosamente com mulheres, 
de mais a mais judias, o rei, aquelle corpo sevad< 
nas graças israelitas de Margarida do Monte, não ti 
nha o seu embaixador em muito serio conceito. Cont 
o cavalheiro de Oliveira que a judia Salvador, com 
mensal de D. Luiz, usava o habito de Christo em 
que a investira o seu octogenário amante. Ora isto, 
a fallar verdade, devia desauthorisar na corte por- 
tugueza os avisos do diplomata.* 

É conhecida a carta do secretario de D. João v, 
Alexandre de Gusmão ao embaixador que lhe pedia 
a sua cooperação para certo negocio. «0 cardeal da 
Motta, escreve Gusmão, disse-me que V. Ex. a que- 
ria metter-nos em arengas, o que era tentar a Deus» ; 
quanto ao rei, esse respondera que a proposição de 
D. Luiz era mui própria das máximas francezas com 
que elle estava naturalisado — e que não prose- 
guisse mais. Não tinha credito com o rei; mas gran- 
geou-o com o príncipe *. 



1 O bispo do Pará, nas suas Memorias, confirma e am- 
plia as noticias do cavalheiro de Oliveira : «Suceedeu que se 






PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 91 



Nas reformas essenciaes de Sebastião José de 
Carvalho transluz a educação politica de D. Luiz da 
Cunha. Na Carta ao príncipe está consubstanciado 
com grande desenvolvimento o alvitre de avocar ao 
juiso secular os processos da Inquisição. Inlluencia- 
va-o certamente o amor da celebrada judia sua con- 
tubernal. Sebastião de Carvalho executou o projecto 
de lei de seu mestre, excepto no artigo em que o 
embaixador aconselhava o extermínio dos autos de 
fé que os naturaes iam ver como uma festa de touros 
e os extrangeiros como uma mogiganga pela varie- 
dade das insignias. Sebastião de Carvalho reservou 
mentalmente para si o privilegio cie acender as la- 
varedas de Domingos de Gusmão quando a sua vin- 
gança precisasse dessa grande luz do alcatrão e das 
archotadas. 



foi apoderando d'elle (do embaixador) a celebre madame 
Salvador que, sem os agrados da idade, teve os attractivos 
de penetrante juizo, felicíssima exposição edominio sobre os 
aíTectos de D. Luiz: de sorte que, vivendo com elle abria os 
massos do rei quando chegavam de Portugal e lia as cartas. 
Perceberam isto os inglezes, e não desconfiando até alli de 
D. Luiz, recearam que esta Omphale mettesse a roca na mão 
a Hercules, sendo partidária de França. Teve D. Luiz a mor- 
tificação, trez mezes antes de morrer, de lhe mandarem tirar 
de caza esta má dama. Foi-se para Hollanda a creatura em 
companhia de D. José de Noronha, irmão do conde de Valla- 
dares. D. Luiz morreu logo na lei em que viveu que ainda 
se não assenta qual fosse». Pag. 138 e 139. 



92 PEKFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Depois, como sabem, Malagrida foi garrotad 
como herege. O conde de Oeiras a zelar a orthodo 
xia Romana ! Que cavillosa perversão a d'este homem 
verdadeiramente illuminado, e espirito vidente, Ih 
chamava hontem o snr. Latino Coelho! * Com que 
criticismo e sensibilidade generosa outro escripto 
excepcional, o snr. Ramalho Ortigão, escreveu ha 
pouco em um jornal brazileiro que o grande mar 
quez atirara um pontapé ao padre Gabriel Malagri 
da ! Cruelissimo pontapé foi esse o que atirou á forca 
e ao fogo um velho dementado pelas trevas e frios 
e misérias de trez annos de masmorra ! Um cava 
lheiro que não dá facadas nos seus adversários po 
líticos, nem espanca os doidos, vence as tentaçoens 
do sonoroso estylo, e não escreve semelhantes chau 
vinismos sem se achar com a funesta coragem de 
fornecer achas para a fogueira do seu próximo, quer 
elle tenha uma convicção religiosa, quer obedeça a 
um tresvario irresponsável — duas situaçoens respei- 
tabilissimas. 

Se o marquez não observou integralmente os con- 
selhos de D. Luiz da Cunha, respeitou com a máxi- 
ma fidelidade as suas reprehensoens aos ministros 
misericordiosos que votavam mais pelo perdão que 
pela forca. N'esta parte, o discípulo nunca desmen- 
tiu o pedagogo, cujos cânones venerou até ao pe- 



i Gazeta da Noute de 7 de maio. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 93 



nultimo anno do seu reinado — -desde o cadafalso de 
Belém até ao incêndio da Trafaria, desde o incêndio 
das cabanas de Monle-Gordo até ao esquartejamento 
de João Baptista Pele. Diz assim o oráculo de Sebas- 
tião de Carvalho: Eu fui desembargador da Relação 
do Porto e da de Lisboa, e observei que muitos dos 
meus collegas (cujo mão exemplo talvez segui) pu- 
nham todo o seu cuidado em achar rasoens para não 
condemnarem d morte os que a mereciam, a titulo 
mal entendido de piedade, que só seria meritória, se 
fosse revelado ao Ministro piedoso que o que livra da 
forca não fará outro delido; mas como raramente 
se corrigem, ó sem duvida que de todos os crimes 
que depois fizerem devem dar contas a Deus os mi- 
nistros que lhe conservaram a vida. D. Luiz da Cu- 
nha e Sebastião José de Carvalho haviam de ter 
muito medo de dar contas a Deus. Meigas e timo- 
ratas consciências! 

N'isto como em tudo mais, D. Luiz da Cunha col- 
labora nos actos de Sebastião de Carvalho respecti- 
vamente ao Santo Ofíicio. Aconselhou-lhe que nobi- 
litasse os christãos novos arrependidos. ministro 
de D. José deu o habito de Christo a um commer- 
ciante que na sua mocidade sahira de vela amarella 
em um auto de fé. Aconselhou-lhe a confusão das 
raças e das cores. conde de Oeiras fez irmão da 
Misericórdia um mulato, com grande vitupério para 
os seus confrades que tinham justificado a pureza do 
seu sangue. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Nas reformas inquisitoriaes também teve notav< 
influencia Francisco Xavier de Oliveira que elle er 
contrara em Londres e Vienna d'Austria. Este livi 
pensador desagradou ao Santo Ofíicio por ter dito 
em uma das suas Cartas publicadas em Amsterdam, 
em 1742, que alguns padres da egreja levados de 
certos princípios, emprestados dos pagãos que tinham 
reconhecido a excellencia do celibato, preferiam este 
estado ao do matrimonio (Carta 56). Sanlo OfFieio 
condemnou a heresia, e fechou para sempre as ave- 
nidas da pátria ao auetor e aos seus livros. Em 1744 
contrahiu relaçoens de fraternal amizade e analogia 
de ideas com Sebastião de Carvalho em Londres. 
Conviveram ainda em Vienna. Depois, o seu amigo 
regressou á pátria, e foi ministro em 1750. O cava- 
lheiro de Oliveira em 1751 imprimia em Londres as 
suas OEuvres Mêlées, sob o titulo de Amusement pe- 
riodique. O Santo Ofíicio foi o seu assumpto predi- 
lecto, e ahi apparece, como no Testamento politico 
de D. Luiz da Cunha, a idea salvadora de chamar 
ao conselho de. estado os processos da Inquisição. 
Em o primeiro numero posterior ao decreto que se- 
cularisa as sentenças do Santo ofíicio, escreve Oli- 
veira jubilando com a execução do seu alvidramenlo : 
O decreto real ordenando que as sentenças da Inqui- 
sição se não executem sem que o seu conselho as ap- 
prove e a assignatura regia as confirme pode natu- 
tural e insensivelmente derruir a jurisdição doesse 
tribunal. Cumpre confessar que este decreto dá van- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 95 



tajosissima idea do novo rei e do novo ministro que 
elle escolheu. A hypocrisia, o bigotismo e a iinpos- 
tura do precedente ministério, isso conheço eu muito 
á minha custa; e, se este togar fosse o adquado paia 
provar o que digo, provas não me faltariam. Inve- 
ctiva contra os ministros de D. João v, pyndarisa os 
novos ministros, e acerescenta : Se não nomeio estes 
ministros é que receio ferir a sua modéstia, e tam- 
bém por iima espécie de delicadeza, por que tendo- 
Ihes eu ha pouco pedido que me façam a justiça que 
os seus predecessores me negaram, a respeito das pre- 
tenções que tenho no ministério, e esperando da sua 
generosidade e da amisade com que sempre me hon- 
raram, que elles hão de reparar as injustiças que 
soffri, não ouso inceriçal-os de maneira que parece- 
ria suspeita e unicamente interesseira. 

Francisco Xavier de Oliveira esperou dez annos 
que os seus amigos ministros lhe fizessem justiça, 
e a íinal fizeram-lh'a por este theor: A inquisição 
processou-o, o processo foi como era de lei ao con- 
selho de estado, o conde de Oeiras, como é natural, 
presidiu a esse conselho, e o seu amigo Xavier de 
Oliveira foi eondemnado a morrer relaxado em es- 
tatua, isto é, queimado vivo, se o apanhassem. 
conde de Oeiras assistiu ao espectáculo na praça do 
Rocio. A estatua do cavalheiro de Oliveira ardia nos 
seus intestinos de lan ao mesmo tempo que os ossos 
do Malagrida se encineravam na fogueira. Ora, quando 
o conde de Oeiras deixava assim proceder, ou pro- 



96 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



cedia directamente com os seus amigos e correligio 
narios, que podiam esperar os adversários? 

Francisco Xavier de Oliveira veio a morrer 
vinte e dois annos depois, em grande penúria, en 
Hachney. Como falleceu em 1783, ainda pôde con 
sagrar duas lagrimas sentidas ao seu saudoso amigí 
marquez de Pombal ! . 

Outro oráculo do marquez de Pombal foi Alexa 
dre de Gusmão, ministro de D. João v. Todas as in- 
comeadas providencias de Sebastião de Carvalho á 
cerca da moeda, das Companhias na America, das 
colónias, das industrias nacionaes, das obnoxias dis- 
tinçoens entre christãos novos e velhos, das minas 



1 O conde de Oeiras, depois de servido pelos seus dó- 
ceis ou vendidos servos, usava com elles um processo origi- 
nal. Em 1760, Mr. de Saint-Julien, encarregado de negócios 
em Portugal, enviava a Lord Knowles um Papel (periódico) 
com noticias de Lisboa em que se diz que dentro de poucos 
dias sahiria á luz um grosso volume contra os jesuítas de 
que era autor o abbade Platel que havia sido frade capuchi- 
nho bem conhecido pelo que praticara nas missoens da Co- 
chinchina, o qual havendo passado para Londres, viera de 
lá para Lisboa com uma boa pensão que lhe mandara dar o 
conde de Oeiras para elle trabalhar n'aquella obra. Este 
francez, mais conhecido por Padre Norberto, apostatára e 
secularisara-se por breve pontifício de 1759. O bispo Siste- 
ron, na sua pastoral de 24 d'abril de 1745, disia deste após- 
tata : Le capucin Norbert est un rebelle, un seditieux aveu- 
glé par 1'orgueil et prive de jugement; un de ces hommes, 






PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 97 



do Brazil encontram-se nos escriptos de Gusmão que 
tem os seguintes títulos : 

Cálculos sobre a moeda. 

Resposta de Alexandre de Gusmão ao papel que fez An- 
tónio Pedro de Vasconcellos governador que foi da colónia do 
Sacramento sobre os tratados dos limites da America. 

Dissertação sobre os interesses dos tratados dos limites 
da America. Consulta sobre o Regimento da fundição das 
minas do Brazil — Resolução de s. magestade sobre a mesma 
consulta — Consulta sobre a advertência da resolução — Avi- 
sos sobre a mesma. Reparos sobre a mesma capitação. 

Estes trabalhos elaborados entre 1747 e 1751, 
fallecido Gusmão em 1753, appareceram nas leis de 



audacieux qui n y ont jamais eu Vesprit de leur vocation; un 
debauché qui est la honte de ses confrères; un fou cl qui il 
échappe à chaque instant de nouvelles extravagances ; un 
indocile que proteste formellement qiCil ne reconnait aucun 
supérieur, ni ecclésiastique, ni séculier ; un cceur double et 
faux qui ria ni honnêtete, ni bonne foi : un esprit dangereux 
sur qui il faut sans cesse avoir les yeux ouverts ; un homme, 
en un mot, capable de tout. Eis um homem ao pintar para 
o conde de Oeiras. Mandou-o vir de Londres, e justou-o por 
1:500$000 reis annuaes para escrever contra a Companhia 
de Jesus. O padre assalariado escreveu com effei to Mémoires 
historiques contenant les entreprises des Jesuites contre le 
Saint-Siege, e imprimiu a obra. Dizia o padre Pedro Homem, 
um dos jesuítas que sahiram do Forte da Junqueira em 1777, 
que o padre Platel era o autor d'um Ante-christo attribuido 

7 



98 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Sebastião José de Carvalho, desde 1754 em diante. 
Ser-me-ia agradável tarefa confrontar o plagiato não 
só na essência das providencias, mas até na forma. 
Não o faço com justo receio de que o meu paiz não 
tenha dez caturras que me agradeçam o inútil ser- 
viço. Se os ha, esses que cotejem os escriptos ge- 
niaes de Alexandre de Gusmão com as jactanciosas 
rapsódias de Sebastião de Carvalho. 

Distingue os dois uma notável differença ; o mar- 
quez de Pombal deixou a seu filho uma casa que ha 
cem annos rendia cento e vinte mil cruzados ; e Ale- 
xandre de Gusmão, depois de servir D. João v como 
seu secretario particular nove annos, morreu tão po- 
bre em 1753 que o seu espolio não chegou para 



a Malagrida, e escripto para o condemnar. Não tenho isto 
como certo : o que sei é o que se lê em um livro muito par- 
cial do conde de Oeiras, intitulado Administração do Mar- 
quez de Pombal. Diz o anonymo : Tendo as memorias histó- 
ricas do padre Norberto acerca da Companhia produzido em 
Portugal e em muitos estados da Europa o effeito que o mi- 
nistro esperava, este resolveu livrar-se de um homem tão 
perigoso. O marquez de Pombal ia desterral-o, porém o pa- 
dre Norberto antecipou-se-lhe fugindo. Esta é boa! Serve-se 
do homem; depois acha-o perigoso, e quer dar cabo (Telle ! 
Nunca se viu coisa assim. 

O apóstata foi morrer miseravelmente em França ou na 
Hollanda em 1770 com setenta annos de idade. A biographia 
do padre Norberto, uma cadeia de infâmias, foi escripta por 
Chevrier e publicada em 1762. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 99 



pagar-lhe as dividas. Sebastião José de Carvalho 
apparece a dar providencias no leiloamento dos 
haveres do seu finado collega. Possuo um cartapa- 
cio de ofíicios redigidos pelo ministro, com a emen- 
ta á margem — Registado. São do punho de Sebastião 
de Carvalho, e com emendas da sua mesma lettra. 
Um dos Avisos diz : 



Para o corregedor do cível da corte Francisco Xavier de 
Mattos Broa. 

Sua Magestade é servido ordenar que Vm. ce em compri- 
mento do precatório que lhe passou o desembargador Ama- 
dor António de Sousa Bermudes de Torres, como juiz do in- 
ventario dos bens de Alexandre de Gusmão, faça logo remet- 
ter para o juizo do inventario para n'elle ser vendido, um 
laço, fita de pescoço, e uns brincos de diamantes e rubis que 
se acham no deposito geral da corte, a requerimento de Anna 
Maria do Vencimento, conservando-se no preço d'estas jóias 
a mesma hypotheca e direito que esta credora tem pela pe- 
nhora que n'elles fez. Deus guarde a Vm. ce 

Paço 12 de maio de 1755. 

Para Amador António Bermudes de Souza Torres. 

Sua magestade deferindo ao requerimento que lhe fez 
Miguel de Avilez Carvalho foi servido ordenar que o corre- 
gedor do eivei da corte remettesse ao juizo do inventario dos 
bens de Alexandre de Gusmão as jóias que se acham no de- 
posito da corto com penhora feita por Anna Maria do Venci- 
mento. ?E' o mesmo senhor servido que Vm. ce as faça ven- 
der em o leilão que se está fazendo dos ditos bens, com a de- 

* 



100 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



claração porém que o procedido das ditas jóias se nào con 
fundirá com o preço dos outros bens, ficando no valor d'es 
tes conservada a penhora e hypotheca especial que n'ellas ti- 
nha a dita credora para se lhe conservar n'est:i até o direito 
que tiver para a preferencia. Deus guarde a Vm. cc 



Paço 12 de maio de 1755 * 



Como havia preferencia, é certo que o espolio : 
não chegava para as dividas. Sebastião de Carvalho/ 
redigindo estes officios, protestava mentalmente não 
morrer insolúvel como o seu collega 2 . 



1 Os oíficios nào tem a assignatura de Sebastião José 
de Carvalho e Mello porque eram os rascunhos. 

2 Ha escuros segredos a dilucidar na biographia cTeste 
estadista que nas sciencias politicas foi mais arguto que D. 
Luiz da Cunha, e na sagacidade e lucidez de fino sentir foi 
o mais avançado espirito do seu século. Alexandre de Gus- 
mão casou em annos bastantemente adiantados, á volta dos 
cincoenta, com D. Isabel Maria Teixeira Chaves, (ilha do 
Francisco Teixeira Chaves, fidalgo da casa real. Era uma re- 
nhora prendada e bem dotada. Pelos serviços de seu pai fora 
ella despachada com a commenda de Santa Comba dos Val- 
les, com a alcairtaria-mor de Piconha e com a tença dos 
Portos-sêcos. Em 1749, quatro annos antes de fallecer, Alexan- 
dre de Gusmão tinha 19:000 cruzados de renda, provenientes 
dos seus empregos, prasos e commendas, cujos rendimentos j 
elle particularisa em uma carta datada em Lisboa aos 19 de 
fevereiro de 1749 e enviada ao seu amigo padre João Mon- 
teiro Bravo (Panorama t. ix, pag.278). Em 1751 tinha dois; 
filhos que lhe morreram no incêndio da casa. Quando elle 



PERFIL DO MARQUEZ-DE POMBAL 101 



O arcediago Luiz António Verney — outro e mais 
fecundo oráculo do marquez de Pombal. 

VERDADEIRO METHODÒ DE ESTUDAR é O motor 

mais progressivo que a chamada edade de ferro das 
lettras portuguezas podia receber não só de um ho- 
mem, senão de uma Academia empenhada na refor- 
mação. Verney, só de per si, multiplicando-se com 
diversos disfarces anonymamenie para redarguir vi- 
ctorioso aos differentes adversários, fez mais que as 
academias que o precederam e seguiram, completa- 
mente estranhas aos assumptos capitães da instruc- 



morreu dois annos depois, era já viuvo. Que fim tiveram os 
prédios de Alexandre de Gusmão? O praso de Corte da Villa 
entre Azambuja e o Tejo que elle comprara em 1749 por 
40:000 cruzados? e os bens que tinham no Brazil? Em fim, 
onde se afundiu o capital que rendia 19:000 cruzados? Ver- 
dade é que em 1749 ainda o ineommodavam os credores. 
«E o certo é (escrevia elle) que por estes primeiros quatro 
ou cinco annos heide metter, como dizem, agulhas por alfi- 
netes, até me alimpar da carepa das dividas, que em quanto 
as ha não tenho descanço. Porem, uma vez que me veja li- 
vre d'ellas, terei com que passar decentemente.» Não chegou 
a completar de vida os cinco annos em que esperava re- 
mir-se; mas que n'esse transcurso de tempo chegasse a apu- 
ros de empenhar o habito e as arrecadas da esposa, ao mesmo 
tempo que conservava carruagem, é isto uma incongruência 
que só pode sahir bem combinada com grandes infortúnios 
motivados por tentativas mercantis ou desordem de regimen 
em que não são raros maiores prodígios». (Curso de littera- 
tura por C. C. B. pag. 163-165). 



102 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 

çâo scientifica, e pelo commum embevecidas em 
gislar poéticas para o theatro e rhetoricas para 
discursos. Na victoria do egrégio lidador influirar 
bons auspícios, por que, embora silenciosos durante 
a lucta, eram da sua parcialidade todos os homens 
illustrados como o franciscano Cenáculo e o congre- 
gado Francisco José Freire. Luiz António Verney po- 
lira em Itália, no crizol de todos as renascenças, as 
armas com que lidou e venceu. Gosou largos annos 
ainda do seu triumpho, por que a semente lançada 
por elle á terra portugueza fortificou rapidamente e 
deu fructos sasonados no dia 23 de dezembro de 
1770 quando uma Carta regia creou a Junta da 
Providencia litteraria, cujos membros, sectários de 
Verney, eram os encarregados de planejarem os no- 
vos Estatutos da Universidade de Coimbra K 

marquez de Pombal entregou os volumes do 
Novo methodo de estudar aos illustrados encomiado- 
res do arcediago Verney, e encarregou-os de remo- 
delar os novos Estatutos da Universidade pelos al- 
vitres do erudito evolucionista. De sua lavra não ha 
elemento algum ; nem a limitada sciencia e descul- 
tivado espirito lhe permittiam collaborar nessa 
obra de reconstrucção. O que havia de sua parte 
era o rancor ao ensino da Companhia de Jesus, como 
se aos professores da Universidade quer leigos, quer 



Curso de litter atura, pag. 159-161. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 103 



clericaes competisse destruir o que estava estatuido 
nos paragraphos sediços dos velhos estatutos. 

Em que moeda pagou o marquez de Pombal a 
Luiz António Verney? ~ 

Na do ódio que cunhava ao fogo do seu luciferino 
coração para todos os homens, distinctos que lhe 
obscureciam a mediocridade. 

Verney foi victimado como agente de negócios 
em Roma ao impressor Pagliarini elevado a essa ca- 
thegoria pelo conde de Oeiras em remuneração da 
guerra que fez á Companhia de Jesus. Clemente xm 
expulsara-o, como infame, de Roma, e Clemente 
xiv, a pedido do ministro portuguez, rehabilitou-o, 
e nobilitou-o com a ordem equestre do Esporão de 
ouro. Que papas! Chega a gente a recear que os 
dois não fossem perfeitamente infalliveis ! 

Verney foi também sacrificado ao estúpido Al- 
mada, embaixador em Roma. Este parente do Pom- 
bal odiava o seu illustrado subalterno que o acon- 
selhava. Denunciou-o ao marquez — que os jesuitas o 
tinham comprado por trinta contos para lhes revelar 
os segredos da corte. O marquez removeu-o para 
a Toscana, e tirou-lhe «algumas rendas de livros 
(diz Verney) e de outras couzas que me ajudavam 
a viver». Escrevia o sábio ao marquez a fim de obter, 
conforme a promessa d'el-rei, que lhe mandassem im- 
primir os seus livros, alem dos três tomos do Novo 
methodo de estudar. marquez não lhe respondeu. 
Imprimiu á sua custa a Physica, e mandou-a apre- 



10Í PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



sentar ao marquez de Pombal. Assentei comigo, dizl 
o pobre doutíssimo Verney, de não imprimir mais* 
anisa alguma, porque os tempos eram infelizes , e 
os meninos não eram para graças. Verney morreu 
indigente em 1792. Sobreviveu dez annos ao mar- 
quez para o poder chorar por largos tempos. 

A carta d'este illustre reformador dos estudos, 
em que se queixa das ingratidões do ministro, ie-se 
no Conimbricense n.° 2229, e alguns extractos d'ella 
nos Processos celebres do marquez de Pombal, 
recentemente publicados em Lisboa. Para opprobrio 
de D. José e da sua filha mentecapta, reproduz-se 
um período d'essa carta: Despedido que foi o Pom- 
bal, o novo governo reconheceu e publicou a minha 
innocencia, e me permittiu tornar para Roma. Doeste 
modo ficou salva a minha honra, mas os gravíssi- 
mos prejuisos em todo o género que soffri e soffro 
nunca se salvaram. E causa admiração a todos os 
políticos illuminados que no governo de uma rainha 
tão pia, tão benéfica e servida por ministros tão jus- 
tos, illuminados e grandiosos, eu me ache no deplo- 
rável estado em que me vejo ! 

Direi agora do mais proficiente collaborador das 
reformas pombalistas, o medico António Nunes Ri-, 
beiro Sanches. Estudou em Coimbra, em Salamanca, 
em Itália, em Londres e em Leyde. Sahiu de Por- 
tugal aos 27 annos, e estabeleceu-se como medico 
na Rússia, onde foi conselheiro da imperatriz Gatha- 
«ina. Transferiu-se para Paris em 1747, e lá morreu 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 105 



em 1783. Prohibiu-se-lhe o ingresso na pátria, desde 
que em Portugal circulou o seu manuscripto intitu- 
lado: Ideias para meu uso acerca da IíNQuisição. 
Os estadistas portuguezes consultavam Ribeiro San- 
ches sobre variadas providencias da reformação, e 
em toda a sciencia de governo, na politica, na eco- 
nomia e nas sciencias. Imprimiu umas cartas em 
1760 sob o titulo de Cartas sobre a educação da 
mocidade, provavelmente enviadas ao conde de 
Oeiras. Assim se exprime em um período: «Parece- 
me que, vistos os notáveis inconvenientes da edu- 
cação domestica e das escolas ordinárias, não fica 
outro modo para educar a nobreza e a fidalguia que 
ápprender em sociedade ou em collçgios ; e como 
não é coisa nova hoje em Europa esta sorte de en- 
sino, com o titulo de corpo de cadetes, ou escola mi- 
litar, ou collegio dos nobres, atrevo-me a propor á 
minha pátria esta sorte de collegios não somente 
pela summa utilidade que tirará d'esta educação a 
nobreza, mas sobre tudo o estado e todo o povo.» 
Cinco mezes depois, o conde de Oeiras creava o Col- 
legio dos nobres por carta de lei de 7 de março de 
1761. 

As providencias do conde de Oeiras sobre Inqui- 
sição e igualdade de christãos novos e velhos acham- 
se elaboradas na dissertação de Ribeiro Sanches in- 
titulada: Origem do appellido de christãos velhos e 
christãos novos em Portugal, e causas por que ainda 
continua, e também a perseguição dos judeus, com 



106 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



os meios juntamente de fazer com que cesse em po% 
tempo essa distincção entre vassallos d' um mesmo so 
berano: e tudo para propagação da religião ca th 
Uca e utilidade do reino. 

As leis do marquez de Pombal sobre agricultura 
inspirou-lh'as o escriplo de Ribeiro Sanches, intitu- 
lado: Projecto para um estabelecimento de escola 
d' agricultura. 

As leis sobre colónias procedem da Dissertação 
acerca dos meios de conservar as conquistas e colo- 
nias portuguezas. 

A reforma dos estudos médicos na Universidade 
está delineada na dissertação : Meios acertados para 
estabelecimento d^um tribunal, d'um collegio de me- 
dicina, a fim que essa sciencia seja sempre útil ao 
reino de Portugal e ás províncias que d'elle depen- 
dem. Além d'isto foi impresso em 1763 o Methodo 
para apprender e estudar a medicina, e illustrado 
com apontamentos para estabelecer -se uma Univer- 
sidade real, na qual deviam apprender -se as scien- 
cias humanas de que necessita o estado civil e po- 
litico. 

«Em 1761, diz Vicq-d'Azir, mandou o doutor 
Sanches muitas Memorias aos principaes médicos da 
Europa e Portugal para reforma das Universidades 
de Salamanca e Coimbra.» 

Quando Ribeiro Sanches communicava ao marquez 
de Pombal os seus planos, todos convertidos nas leis 
que estabeleceram a gloria do ministro, a sua pe- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 107 



nuria de meios era muito apertada em Paris. Viveu 
ali dezeseis annos sem soccorros da Rússia, e nem 
um ceitil dos seus compatriotas. E o marquez de 
Pombal, que dava 1:500$000 reis annualmente ao 
infamissimo padre Norberto, consentia que o seu 
inspirador, nos derradeiros annos, acceitasse, com 
o jubilo da miséria soccorrida, a esmola que lhe 
mandou a imperatriz. 

Em nenhum escripto coevo do reinado de D. José 
se encontra este glorioso nome. E' necessário abrir 
o 3.° vol. da Historia natural de Buffon para sa- 
bermos que o eminente naturalista se confessava 
agradecido ás illucidaçoens do medico portuguez. 

De resto, não é fácil destrinçar quaes sejam as 
concepções individuaes e genialmente espontâneas 
do marquez de Pombal — espirito creador, no dizer 
do académico Latino Coelho. Tudo lhe concorreu de 
elaboração alheia. E, se não fosse elle o assimilador, 
seria um dos muitos seus contemporâneos, mais ta- 
lentosos e menos perversos, uns obscurecidos, ou- 
tros aniquilados pela presumpção de querer ser 
único. Leis originaes, da estreme concepção de 
Sebastião de Carvalho — indisputavelmente d'elle — 
são uma que manda fazer o canal de Oeiras para os 
vinhos do conde se transportarem economicamente; 
outra que estabelece a feira de Oeiras para encare- 
cer as propriedades do conde e os géneros da sua 
lavoira — e a lei dos Contíguos para encravar na sua 
quinta de Oeiras as pequenas propriedades lemi- 



108 



PERFIL. DO MARQUEZ DE POMBAL 



(roles. A quarta creapão genuína de Sebastião José 
de Carvalho é a lei promulgada em 15 de março 
1751 em que se prohibe pendurar cornos epigramma 
ticos ás portas das pessoas casadas, li não me consta 
que se celebrasse este rasgo civilisador nas actasl 
do centenário. legislador intendera que tão durai 
fazenda dentro das cazas e á porta da rua era', 
um pleonasmo, um luxo digno de pragmática repres4 
siva. Sempre grande este marquez! Chegava até aosl 
cornos, não direi da lua, mas dos seus concidadãos.! 



H^0^^- 









e—t-^-VTr^^Z/Z^s-a — » 




ps pindaristas do marquez de Pom- 
bal, a meia volta, vem com o ter- 
ramoto a terreiro, como quem des- 
embainha a melhor lamina de To- 
ledo. Pretendem, ao que parece, 
convencer-nos de que, sem Sebas- 
tião José de Carvalho, a terça parte 
de Lisboa, arrasada pelas convul- 
soens e pelo incêndio, nunca mais se levantaria. 
Dão ao ministro uns ares mythicos de Amphião que, 
ao toque da sua lyra, arrastava as pedras que muito 
de compasso se iam dispondo na construcção dos 
muros de Thebas. Elles sabem perfeitamente que as 
providencias legisladasnesse desastre confluíram de 



110 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



diversas juntas civis, ecclesiasticas e technicas. 
viram-se os alvitres de diversos indivíduos e o pr 
meiro consultado foi um a quem o rei perguntou: 
— que hade agora fazer-se? — «Enterrar os 
mortos, cuidar dos vivos e fechar os portos» res- 
pondeu o marquez de Morna; mas o vulgo dos apo- 
logistas do marquez não permitte que algum luzo, 
tirante Sebastião de Carvalho, podesse dar resposta 
tão attica e profundamente conceituoza. 

ministro na sua posição official fez o que lhe* 
cumpria. Não fugiu de Lisboa. Nenhum dos seus 
collegas fugiu. Se fugisse, algum dos seus coopera- 
dores seria investido da sua authoridade e do ex- 
pediente que as circumstancias aconselhavam a 
qualquer intelligencia mediana. Permanecendo entre 
as ruínas, ou mais litteralmente, na barraca da cal- 
çada da Ajuda, onde se não sentiam os grandes aba- 
los, cumpriu o seu dever, de mais a mais com a sa- 
tisfeita complacência de quem nada perdera no ter- 
ramoto. Nem havia termo médio no exercício das 
suas funcções: ou ser aquillo que foi — um collabo- 
rador enérgico das providencias, ou abandonar o 
posto e a responsabilidade. 

Eu não me sinto muito penetrado de admiração 
pelas primeiras providencias de modo a consideral-as 
uma explosão de génio. Aquillo de fazer conduzir das 
províncias violentamente levas de operários para 
caboucarem nas ruínas — o cerco posto aos gallégos 
fugitivos para os fazer trabalhar com o tagante á 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 111 



vista — a tomadia dos cereaes e outros viveres nas 
provindas forçando os proprietários a vender por 
preços ínfimos o pão necessário para o seu cos- 
teio agricola — estas medidas despóticas commovem 
menos que uns espectáculos que ninguém relem- 
bra com receio de desluzir a gloria absoluta do 
marquez. Em quanto Sebastião de Carvalho, de lu- 
neta no olho, e as costas direitas no respaldo da 
poltrona presidencial, assistia ás conferencias, viam- 
se por entre os escombros da cazaria arrasada os 
parochos e as religioens salvando os moribundos e 
sepultando os mortos. D. João de Bragança, irmão 
do duque de Lafoens, por entre o acervo do pedre- 
gulho, arrancou da morte muita gente entalada nos 
vigamentos abatidos. Sampayo, um monsenhor dapa- 
triarchal, com as pessoas que lhe seguiram o exem- 
plo, sepultou duzentos e quarenta cadáveres, e con- 
duziu os feridos aos hospitaes. Pelos arrabaldes de 
Lisboa andavam vários fidalgos com os seus médi- 
cos curando os feridos. Os mosteiros abriram espon- 
taneamente as suas cercas para hospitaes, e os fra- 
des davam aos feridos o seu pão e os seus disvel- 
los de infermeiros e consoladores. Os cónegos re- 
grantes e os oratorianos receberam em S. Vicente e 
nas Necessidades muitas famílias desvalidas a quem 
sustentaram e abrigaram nas suas cercas. Os filhos 
bastardos de D. João v recolheram no paço e no 
jardim de Palhavan mais de duas mil pessoas que 
alimentaram e vestiram durante muitos mezes. Ou- 



112 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



tros fidalgos, nestes extremos de caridade, empe^ 
nharam os seus haveres desfalcados pela desgraça] 
commum. Parte do palácio dos Tavoras no Campa; 
Pequeno constituiu-o a marqueza em hospital de que 
ella foi a mais caridosa infermeira. 0, enterro dos 
cadáveres que ameaçavam a conflagração da peste 
foi a providencia summa a que, sem estímulos do 
ministro, acudiram os nobres e os prelados para da- 
rem exemplo á arraia-miuda que fugia com um 
prudente medo do azorrague pombalino que acti- 
vava as providencias. As ordens expedidas com 
referencia a hospitaes não eram do ministro : eram 
dos homens technicos, da junta de facultativos quO 
superentendia nessa espécie, e communicava ao 
ministério as suas deliberaçoens. A iv Providencia 
que manda sahir para vinte léguas distantes da 
corte os amancebados com as suas mancebas, essa, 
sim, não se comprehende que um estadista portu- 
guez a concebesse sem ter no craneo, por transfu- 
são, um pedaço do cérebro de Richelieu com outro 
pedaço enceplialico de Colbert. 

scôpo deste degredo dos viciosos era apagar 
ò raio da vingança divina sobre Lisboa por causa 
dos taes indisciplinados do Tridentino. Também man- 
dou prender e degredar para Angola uns ;profekis 
imbecilitados pelo terror que andavam pelas ruas 
repetindo o que o patriarcha João Manoel dizia nas 
pastoraes : que por causa dos peccados da devassa 
Lisboa, se abalara a terra — que fizessem peniten- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 113 



cia. A ordem que manda enforcar os ladroens es- 
tava no Livro v; e, se não estivesse, em tal con- 
junctura, qualquer aguazil de corregedor a propo- 
ria; mandar, porém, que os 200 ladroens enforcados 
estivessem suspensos nos patíbulos, ás esquinas de 
Lisboa, até o tempo os consumir, foi um alvitre, so- 
bre supérfluo, nocivo, por que augmentava as pro- 
babilidades da peste pela podridão dos cadáveres 
insepultos. As providencias para desentulhos e ou- 
tras operaçoens concernentes ao desbarranco das 
ruinas, são do senado; e, quando fossem do minis- 
tro, nada tem que as recommende á admiração da 
posteridade. Os alvitres respectivos ás freiras des- 
enclaustradas, aos frades, ao culto, e ás procissoens 
penitenciarias promanaram do patriarchado. 

O essencial da Providencia xn são os Actos de 
sua magestaâe para applacar a ira divina. E' o 
mesmo que faziam os taes profetas mandados para 
Angola. Estes pobres idiotas como não tinham á sua 
devota disposição as gargantas dos cónegos, can- 
tavam elles em notas gemebundas a sua peni- 
tencia. 

Por escassez de capital não tinha razão de affli- 
gir-se o ministro. Havia abundância de dinheiro e 
de viveres. O erário régio não se tinha perdido. O 
cofre dos orphãos que estava em S. Roque passou 
para o erário. Os cofres da casa da moeda, dos Três 
Estados, e dos Defunctos e Auzentes tiraram-se das 
ruinas. De Inglaterra, no mez immediato ao da ca- 

8 



114 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



tastrophe, veio, como brinde de Jorge n, em seii 
navios de guerra, um generoso donativo. Os anglo- 
pbobos, quando verberam a pérfida Albião, fingem 
que não sabem o facto humilhante de ter recebido 
Portugal, mediante Sebastião José de Carvalho, a 
quem o presente foi dirigido — 270:000 cruzados, 
200:000 alqueires de farinha, 200:000 de trigo, 
6:000 barricas de carne salgada, 4:000 de man- 
teiga, 11:000 de arroz, 5:000 sacas de bolacha, e 
toda a espécie de instrumentos de ferro para des- 
entulhar e construir, assim como milhares de sapa- 
tos. (Relaçoens politicas e diplomáticas de Portugal, 
tom. xvni, pag. 363). O ministro de França, por 
esse tempo, annunciava ao duque de Choiseul que 
tinham chegado de Hespanha dous carros de di- 
nheiro. 

Foram regeitadas as offertas de França, excepto 
architectos e alveneis para a reedificação dos esta- 
belecimentos públicos. Com superabundância de di- 
nheiro, de braços, de engenheiros peritissimos como 
Carlos Mardel, Eugénio dos Santos e Manoel da Maya, 
e de funccionarios intelligentes e activos em todos 
os districtos da administração, realmente a estatura 
de Sebastião José de Carvalho, vista a olho nu, 
pouco se avantaja á dos seus cooperadores na fácil 
obra de remover entulhos com os braços do exer- 
cito, e reedificar prédios á custa dos seus donos. 
Dizem que dera um novo feitio á cidade. Pudera não 
dar! Maravilha seria que a reconstruísse pelo tra- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 115 



çado em que o terramoto a encontrou! Estranhas 
calinadas. 



■*■ 



Lisboa tinha soffrido desde 1309 até 1755 onze 
terramotos mais ou menos destruidores. No de 1551 
arrazaram-se duzentas casas e morreram duas mil 
pessoas. No de 1597 submergiu-se o Alto do Monte 
de Santa Gatharina com três ruas e cento e dez 
edifícios. Mas o de janeiro de 1531 é comparável ao 
de 1755, por que abateram mil e quinhentas casas 
não se calculou os milhares de victimas. Pois os 
chronistas do reinado de D. João m, intendendo que 
os ministros não mereciam a immortalidade pelo 
facto de cumprirem o seu dever, providenciando no 
enterro dos mortos e no remédio dos vivos, escas- 
samente relatam o successo. Garcia de Resende dei- 
xou na sua Miscellanea a relação poética do grande 
terramoto, em que nem sequer allude a Pedro de 
Alcáçova, o Pombal d'aquelles tempos. * 



1 Nos Annaes de D. João iii por Fr. Luiz de Sousa ha 
um vácuo de sete annos, 1530-1537. O insigne escriptor dei- 
xou fora dos Annaes a noticia do terramoto. Em compensa- 
ção, Garcia de Resende, testemunha ocular, conta a^sim a 
catastrophe : 



116 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



= 



Por mais calamitosas provaçoens passaram 
boa e os ministros a quem corria a obrigação 
as remediar. Houve pestes mais devastadoras que 
os terramotos. Na de 1569 morriam no decurso 
de alguns mezes entre quinhentas e seis centas pes- 
soas por dia. Os operários cahiam mortos pela fome'* 
Já não havia terra para sepulturas. Parte dos se&l 
senta mil que morreram enterraram-se nas lojas 
das próprias cazas. Em quanto o rei em Cintra pro- 
mettia levantar um pomposo templo a S. Sebastião 
advogado da peste, Diogo Lopes de Souza governa- 
dor da casa do Civel e D. Martinho Pereira vedor 



Gretas, buracos fazia 

a terra, e se abria; 

agua e areia sabia 

que a enxofre fedia ; 

isto em Almeirim se viu ; 

e porque logo vieram 

grandes chuvas que choveram 

e alguns dias duraram, 

as aberturas taparam 

que nunca mais pareceram. 

Todos com medo que haviam 

deixaram casas, fazendas; 

nos campos, praças dormiam, 

em tendilhoens e em tendas ; 

casas de ramas fasiam. 

Dous meses assi estiveram, 
na mór força do inverno ; 
aguas, ventos sostiveram, 
tormentas, trovoens soffreram 
bradando por Deus eterno. 






PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 117 



da fazenda esforçavam uma inútil coragem, na ci- 
dade, a pé firme, no âmago do incêndio da peste 
abrindo casas de saúde e tirando recursos prodi- 
giosos, sem violências nem alcavallas, do meio da 
miséria geral. Dez annos depois, o guarda-mor da 
saúde Diogo Salema providenciou contra outro fla- 
gello desolador que matou em Lisboa quarenta mil 
pessoas, vinte mil em Évora e cem mil em todo o 
reino. Lucta desabrida com a fatalidade irrepará- 
vel devia ser a desses homens chamados a reme- 
diar infortúnios como se deparam nos quadros des- 
ses dias de angustia! Um jesuíta infermeiro dos em- 



Tambera se sentiu no mar t 
sem vento mares se alçaram ; 
navios foram tocar 
com quilhas no fundo dar 
como perdidos andaram. 

Muros e torres cahirara, 
villas, praças, mosteiros, 
egrejas, casas, celleiros, 
quintas, e as mais abriram. 
Nâo caíam pardieiros : 
pedras se viam rachadas, 
e cousas de muitas sortes, 
quanto mais rijas, mais fortes, 
tanto mais espedaçadas. 
Infinda gente morreu ; 
grandes perdas receberam, 
grande perda se perdeu; 
muitos má morte morreram 
por que de noite aqueceu. * 



1 Aconteceu 



118 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



pestados, o Padre Manoel Fernandes pintou um desse 
quadros com esta pungente simplicidade: Cortava o 
coração ver os filhinhos depois da morte das mães 
irem para o degredo (quarentena) com seus crucifi- 
xos na mão, lamentando sua orfandade. Por outra 
parte ir ferida, caminhando para a casa de saúde,, 
a se curar, uma viuva com seis criancinhas, de 
longe chorando após ella, e quando a pobre ia ca- 
minhando aos poucos pela força do mal, se assen- 
tava pára descamar, pondo os olhos riaquelle órfão 
rebanho, quando o deixava so entregue nos braços da 
divina Providencia, aconteceu com os olhos fitos em 
tão lamentável objecto expirar ; e assim era conso- 
lação para as mães morrerem-lhe os filhos primeiro^ 
por não deixarem tanto desamparo. E ás vezes se 
achavam as criancinhas vivas mamando nos peitos 
das mães mortas K 

Isto é que eram horrendos conflictos ! Os minis- 
tros incumbidos de providenciarem contra um ini- 
migo incessante e implacável deviam de vêr-se em 
trances bem mais apertados que Sebastião de Car- 
valho que tinha ás suas ordens milhares de contos 
e milhares de braços para desobstruir as rimas dos 
cadáveres, terraplenar os alicerces da nova cidade, 
mandar aos proprietários dos terrenos que edificas- 



1 P. e António Franco, Imagem da virtude em q Novi- 
ciado de Coimbra, pag. o89. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 119 



sem de novo, se quizessem, e vender por conta do 
thesouro os chãos cujos proprietários não appare- 
ciam reclamando. Os dinheiros do erário eram tão 
de sobra que Sebastião José de Carvalho os em- 
prestava aos seus amigos que queriam edificar. 
quarteirão de casas que os Bertrands possuíram e 
legaram aos seus herdeiros na Rua Garrett foi assim 
construído. primeiro Bertrand veio pobre para 
Portugal, enriqueceu protegido por Sebastião José 
de Carvalho, administrador liberalissimo do erário, 
ao mesmo tempo que os fidalgos dispendiam as suas 
casas quebrantadas no amparo das famílias indigen- 
tes. Não sei se Carvalho ganhou com o terramoto ; 
perder é que decerto não perdeu. A sua casa da 
Rua Formosa ficou intacta. parvoeirão do rei disse 
que era isso uma prova de que Deus protegia o seu 
ministro ; e o conde de Óbidos respondeu : Certo é, 
senhor ; mas similhante protecção acharam também 
em Deus as moradoras da rua Suja. 







<-<&— *— ^-> 




ebastiÃo José de Carvalho conhecia 
os processos de governar do seu con- 
temporâneo Frederico ir. Companhias, 
todas as emprezas commerciaes em 
Companhias. Era preciso que não 
houvesse discrepância nos traços de 
analogia entre Frederico n da Prús- 
sia e José i de Portugal. P. e António Pereira de Fi- 
gueiredo já tinha confrontado D. José i com Augusto 
Cezar, e achou este segundo diminuto na compa- 
ração. Parallelo de Augusto Cezar e de D, José o Ma- 
gnânimo, Rei de Portugal. É onde pôde chegar a ser- 
vil bajulação de um homem intelligente I 

Nos estados prussianos havia Companhias de as- 



122 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



sucar refinado, da raiz da chicória para substituir 
o café, para o commercio do sal, para o commercic 
das lenhas, e até para a pesca do arenque. O conde 
de Oeiras, sempre no faro de Frederico, tamber 
creou a Companhia da pesca do atum no Algarve 
outras pescarias — fazendo fugir 3:000 pescadores 
portuguezes para Hespanha— e também creou a Com- 
panhia da pesca da baleia no Brazil, e mais a do sal, 
vendendo o monopólio por 60 contos, e fomentandc 
as desgraças do povo e da agricultura que o historia- 
dor Robert Southey explanou largamente, e as linhas 
que delimitam este bosquejo não comportam. 

Certo escriptor absolutista exalta o marquez de 
Pombal pela instituição das Companhias violentas 
por que diz elle que as espontâneas só se poder 
formar nos governos republicanos como foram Mar- 
selha e Florença. Faz a apologia dos privilégios, 
dá uma desanda nos modernos que os combatem, 
declarando que a intervenção do commerciante nc 
conhecimento dos negócios públicos é incompative 
com o espirito das monarchias. Este absolutista es- 
turrado, ardente panegyrista de Pombal, parece que 
levantaria bandeira entre os republicanos do cente 
nario, se não tivesse morrido ha annos em Lon- 
dres K Deste proemio deriva ao elogio da Compa- 



1 O Novo Príncipe ou o Espirito dos governos mo- 
narchicos pelo dr. em medicina José da Gama e Castro. Rio 
de Janeiro (2. a edição) 1841, pag. 380. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 123 



nhía geral da agricultura dos vinhos do Alto-Douro, 
promulgada por alvará de 10 de setembro de 1756. 
leitor sabe de sobra o que foi a Companhia; e, se 
o não sabe, pede-me que o não importune com tal 
antigalha; mas eu, que estudo esta questão ha três 
quartos d'hora para perceber como Sebastião José 
de Carvalho mandou inforcar treze homens e quatro 
mulheres, e açoitar e degredar muitos populares, 
peço licença para infastiar o leitor por quinze mi- 
nutos. 

Em 1753 a Feitoria ingleza comprou aos lavra- 
dores do Douro 21:107 pipas de vinho a 17 libras 
cada pipa. Em 1754 os feitores inglezes escreviam 
aos seus commissarios no Porto — a que os vinhos por- 
tuguezes estavam desacreditados em Inglaterra, como 
venenosos pelas estranhas confeiçoens com que eram 
fabricados.» — No mesmo anno pois em que os médicos 
inglezes davam como venenoso o vinho do Douro, 
bebiam elles lá as 21:107 pipas de veneno a 77$500 
a pipa. Excentricidades inglezas, patifarias inglezas. 

Desacreditado o vinho, por conluio dos compra- 
dores, que não tinham concorrência no mercado, 
compraram por 3 libras a pipa que no anno ante- 
rior tinham comprado por 17, e continuaram a em- 
bebedar-se, quero dizer — a envenenar-se. 

Um tal Pancorvo, hespanhol, negociante de vi- 
nhos, conversando com um frade dominicano, cha- 
mado José Mansilha — tio-avô d'outro Mansilha, es- 
tudante de Coimbra, e assassino enforcado em 20 de 



124 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



julho de 1828 — lembrou-lhe crear-se uma Compa- 
nhia para contra minar a collusão ardilosa dos in 
gleses. frade foi ao Douro d'onde era natural 
conversou com alguns lavradores afflictos, e parti 
para Lisboa em procura de Sebastião José de Car- 
valho. 

ministro ouviu o frade e achou tão acertada 
ideia da Companhia que nem mais largou o frad 
nem a ideia. 

Foi a Companhia instituída, e taxaram o pre< 
de cada pipa de vinho entre 20 e 25$000 reis — pri 
meira arbitrariedade estólida ou capciosa em que já 
se accusa o monopólio. Os preços regulares, ante 
riores a 1754, foram despresados para a fixação d 
taxa, c attenderam somente ao preço contrafeito d 
1754 e 1755. Se remontassem vinte e seis anno 
antes, achavam em 1730 o vinho a 52$000 reis po 
pipa. Este preço augmentou até 1750 em que se ven 
deu a 70$000 reis. Tinham vinte e seis annos regu 
lares para determinarem um termo médio; porém 
só lhes serviu para comparação o anno em que os 
feitores mancommunados reduziram o preço a 13$500 
e 10$000 reis. 

Começaram as preferencias, as desigualdades, os 
vexames e o desenfreado monopólio. Poucos lavrado- 
res lucraram, relativamente a muitos que ficaram per 
didos. A Companhia nunca elevou a taxa aos preço* 
antigos, e a situação do lavrador era cada vez mais 
desgraçada, por esta razão: — em 1750 uma pipa de 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 125 



vinho vendia-se entre 600000 e 700000 reis. A raza 
de pão milho custava 200 reis. Por consequência, 
uma pipa de vinho vendido por 600000 reis equi- 
valia a 300 alqueires de pão. Quarenta annos depois 
da instituição da Companhia, vendeu-se o vinho de 1 . a 
qualidade por 260260 reis. Estava o milho a 800 reis 
a rasa. Uma pipa de vinho, por tanto, equivalia a 35 
alqueires de pão. Logo : antes da Companhia, uma pipa 
de vinho valia, pelos menos, 300 alqueires de pão; e, 
depois de meio século da direcção inaugurada pelo 
frade Mansilha, procurador da Companhia em Lisboa 
e pelo ministro Carvalho, accusado de receber 1 00:000 
cruzados annuaes, uma pipa de vinho equivalia a 
36 alqueires. Os partidários da Companhia citavam 
o anno de 1812 em que se vendeu a pipa de vinho 
por 1000000 reis; mas o pão estava a 10200 reis: 
equivalia por tanto uma pipa de vinho a 83 alquei- 
res. No anno de 1806 a Companhia, despresando as 
leis da instituição, pagou o vinho a 60000 reis a 
pipa, equivalente a 6 alqueires de pão que então se 
pagou a 10000 reis. 

Mas Sebastião José de Carvalho, instituindo a 
Companhia, fez que o lavrador recebesse vinte e 
cinco mil reis pela pipa de vinho que vendia por 
100000 reis em 1755. Isso é assim. O ministro, na 
sua profunda ignorância das leis económicas, que 
podia ter aprendido na longa residência em Ingla- 
terra, executava impetuosamente os seus alvitres 
antes de os meditar ou não os sabia meditar. Os 



4 26 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



10^000 reis não era o preço ordinário — era o re- 
sultado de uma sórdida confederação dos compra- 
dores, era um preço retrahido e contrafeito que de- 
via ceder a outra ordem de providencias, á abertura 
de outros mercados, á concorrência de competidores 
e a um desvio da rotina como cumpria a um esta- 
dista gravido de reformas. Sebastião de Carvalho 
suppunha vêr, no seu curto horisonte, a Feitoria in- 
gleza punida com a instituição da Companhia; e 
Inglaterra zombava do estadista lôrpa que lhe dera 
a vantagem de pagar com 28$000 o que, antes de 
instituição, lhe custava 17 libras. Em uma Memorio 
publicada em Londres, por 1812, a favor da Compa- 
nhia, dizia um Duarte Tompson : «Ha 26 annos que 
sou correspondente da Companhia, e tenho tido er 
todo este espaço de tempo frequentes occasioens de 
observar que, a não existir ella, ficariam os vinhos 
por muito maior preço aos importadores.» 

Todas as instituiçoens do marquez de Pombal, 
exceptuadas as da instrucção publica, ou morreram 
com elle por insustentáveis como as manufacturas, 
ou, se lhe sobreviveram, deram os resultados da 
Companhia dos vinhos e de todas as Companhias no 
Brazil. Quanto ás reformas da sciencia, essas tinham 
de si mesmas o natural impulso de vitalidade, que 
não estava no propulsor, mas na acção omnipotente 
e evolutiva do tempo. Se não fosse o marquez quem 
reformasse a Universidade, seria um dos muitos 
que cooperaram n'essa reforma, em que elle não 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 127 



poz um obulo de sua lavra intellectual. Chamam-lhe 
Sully, Richelieu e Colbert. Fazem-no recuar um sé- 
culo na vereda da civilisaçâo. E' de justiça. Os gran- 
des estadistas do seu tempo chamavam-se Alberoni, 
Walpole e William Pitt. Ninguém dirá que Sebastião 
de Carvalho foi contemporâneo de Voltaire e Rous- 
seau, se o não atteslassem o ferino empedramento 
de alma vasia de toda a piedade e barbarisada pelo 
destemor da justiça providencial. Insultava a reli- 
gião dos dogmas e a da naturesa, quando fingia 
acatar a perversidade nos flagícios da Inquisição, e 
servia-se de Christo como de um auxiliar que lhe 
mascarasse a impiedade das suas injustiças. 

Em 1770 comminava graves penas a quem pos- 
suísse e não entregasse para a fogueira a Analyse 
de Bayle, o Dictionaire philosophique de Voltaire, o 
Nouveau Dictionaire hiúorique portatij\ as Lettres 
turquês, as OEuvres philosophiques de la Metrie, etc. 
Que desfaçado impostor! Elle lia tudo isso, e esfor- 
çava-se por manter o povo nas trevas, receando a 
reacção da philosophia. Que civilisador, ó centena- 
rislas! 

Nem Deus, nem dignidade, nem remorsos. 

A sua mão, onde quer que pousava, punha nó- 
doas de sangue. A Companhia dos Vinhos foi inau- 
gurada no Porto com uma fileira de forcas que tra- 
balharam seis horas, e por um crebro ulular de ge- 
midos de uns açoitados que se tinham amotinado em 
seguida á bebedeira de terça-feira de entrudo» 



128 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



-^ 



Eu não me persuado que tivessem uma preluci- 
dação das futuras malfeitorias da Companhia os ar 
ruaceiros condemnados. Sim: não me atrevo a con- 
siderar martyres da sciencia economico-agricola 
soldado António de Sousa, de alcunha o Negro, 
mais o Manoel Francisco, de alcunha o Cosido, e 
Tativitate, e o Chêta, e mais as senhoras Custodia 
Maria, de alcunha a Estrellada, cúmplice enforcada 
da Páscoa Angélica, meretriz professa. Nem elles ner 
ellas se devem considerar bodes e cabras expiató- 
rias da idêa moderna contra os monopólios e pela 
liberdade das industrias. A celebrar assim a memo- 
ria destes padecentes, não se explica a incongruên- 
cia dos democratas avançados que, um destes dias, 
fizeram a apotheose do déspota que mandou enfor- 
car aquella gentalha esfrangalhada e piranga, como 
reos de crime de alta traição e de leza magestade 
da primeira cabeça. Não se renega assim o ideal 
avoengo. 

Historiadores de outiva e nomeadamente o snr. 
Simão Soriano contam coisas pavorosas do escrivão 
da alçada, o desembargador José Mascarenhas Pa- 
checo Pereira Coelho de Mello. Chama-lhe «monstro 
de crueldade» e exprobra-lhe ter violado immunida- 
des, denegrido honras de mulheres casadas e filhas 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 129 



honestas que lhe iam exorar as vidas dos pais e ma- 
ridos, chegando a fazer enforcar as mulheres que cor- 
rompera. snr. Soriano leu isto e muitos mais qua- 
dros sardanapalêscos em um manuscripto qualquer 
intitulado Vida do marquez de Pombal e nas Recor- 
daçoens de Raton. Porém, as testemunhas de vista, 
aliás desaflectas ao marquez de Pombal, Agostinho 
Rebello da Costa, por exemplo, na Descripção topo- 
graphica e histórica da cidade do Porto, nem accu- 
sam nem se quer deixam transparecer alguma des- 
sas violências assacadas ao escrivão da alçada. 

procedimento dos amotinados desculpa a seve- 
ridade do castigo. Quando entrou no Porto o presi- 
dente da alçada João Pacheco Pereira de Vasconcel- 
los, hospedando-se na casa dos Amorins, na Praça 
das Hortas, a populaça foi tumultuosamente dar-lhe 
morras á porta e apedrejar as sentinellas. A praça 
trasbordava de sediciosos em estrondosa assuada, 
dando vivas ao povo e vozes de fogo contra o pi- 
quete. desembargador deu ordem ao comman- 
dante de dragoens que despejasse a canalha a cu- 
tiladas, o que se fez com a maior actividade, se- 
gundb depõe testemunhas da devassa — depoimen- 
tos que, a fallar verdade, dispensamos por que não 
temos a menor duvida de que o povo fosse muito 
activamente e meritoriamente acutilado. 

Se houve iniquidade na sentença da alçada, essa 
é a que menos ensanguenta os annaes do marquez 
de Pombal; chego até a persuadir-iue que o processo 



130 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



nunca se desviou da linha recta da justiça nem tã 
pouco se aproximou da outra da misericórdia. 

Mas é curiosíssimo o empenho com que se prc 
cura declinar da lei e do primeiro ministro a seve 
ridade dos supplicios sobre a responsabilidade 
escrivão da alçada José Mascarenhas! Alguns idea 
listas que a seu sabor desculparam o marquez, drá 
matisam uma lenda, já romantisada pelo eminente 
escriptor Arnaldo Gama, reproduzida a serio por ar 
ticulistas de bom cunho como Emygdio de Oliveira 
referida por Soriano e também por elle refutada 
Historia de D. José i. Contam que o conde de Oeiras, 
indignado pela crueldade de José Mascarenhas, o en- 
viara insidiosamente ao Brazil com carta de prego 
ao vice-rei Gomes Freire. Apresentou-se o desem- 
bargador illudido, e soube que a sua missão era 
preparar uma masmorra para aferrolhar um réo de 
alta traição. Escolheu-se o peor dos calabouços na 
peor das fortalezas da colónia; mas o desembarga- 
dor, ainda assim, lamentava não haver coisa peor, 
que bem correspondesse ao crime do condemnado 
quem quer que fosse ; e, no cumulo do zelo, censu- 
rou a indulgência do vice-rei a quem a enxofia se 
figurava atroz de mais. Gomes Freire deu-lhe razão, 
e mandou-o entrar na masmorra, por que era elle 
o criminoso de alta traição. 

O conto é de effeito; mas desdizem da condição 
do conde de Oeiras a causa do castigo e o expediente 
atraiçoado. Se elle quizesse punir as crueldades do 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 131 



escrivão da alçada, não usaria insidia nem cartas 
de prego: intimava-lhe a prisão, o desterro e a 
morte sem preâmbulos nem cerimonias. Mas a ver- 
dade não é isso, não é esse romance tão despara- 
tado dos costumes do marquez de Pombal. Procura- 
rei esclarecer as obscuridades em que envolveram 
este José Mascarenhas, execrado escrivão da alçada, 
Innocencio Francisco da Silva, Simão José da Luz 
Soriano, e outros escriptores bem subsidiados pelo 
thesouro nacional, mas dotados de uma grande e 
estéril preguiça também nacional. 

José Mascarenhas era algarvio e tinha trinta e 
sete annos quando veio na alçada ao Porto. Antes 
dos quinze annos sentara praça no regimento da Ar- 
mada. Era filho dò desembargador do paço João Pa- 
checo Pereira de Vasconcellos e D. Anna Mauricia 
Mascarenhas de Mello, de Lisboa. Levaram-no para 
a milícia enlhusiasmos romanescos. Da Armada pas- 
sou para tenente de cavallaria do regimento do 
Cães ; nesta patente foi para o castello da Ilha Ter- 
ceira e subiu o sargento-mór da praça. Aos deseseis 
annos escreveu um livro de versos que intitulou 
Saudades do oceano. Se é crivei que um lyrico 
abonado por tão romântico titulo de versos, fosse 
capaz de corromper as colarejas do Porto e man- 
dal-as enforcar corrompidas ! Ao mesmo tempo que 
poetava, exhibia a sua sciencia militar em outro li- 
vro que escreveu e não imprimiu: Evoluções mili- 
tares para a instrucção cio mais ignorante soldado. 



132 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Quando se enfastiou da vida militar, ahi na volta 
dos trinta e dous annos, foi para Hespanha, e es 
tudou jurisprudência cezarea e pontifícia nas univer- 
sidades de Valladolid e Salamanca. Graduado nesta 
faculdades, regressou em 1747, matriculou-se na 
Universidade de Coimbra, defendendo, diz Barbosa, 
com exemplo nunca visto, conclusões magnas e% 
todo o Direito civil, em 1755. Doutorou-se por tanto 
aos trinta e cinco annos. 

Durante o curso de Coimbra escreveu e publi- 
cou versos — sessenta oitavas, sob o titulo de Glo- 
rias de Lysia, celebrando os desposorios de D. Eu- 
genia, filha do conde de Tarouca, e Manoel Telles 
da Silva. Cantou a exaltação de D. José ao throno. 
Pranteou a morte do marquez de Valença, cujo elogio 
recitara na Academia dos Occultos : chama-se Senti- 
mentos de Lysia a pezada empada métrica. Em proza, 
publicou oraçoens académicas recitadas em acade- 
mias hespanholas de que era sócio, e um Culto en- 
comiástico em louvor do dom prior de Santa Cruz, 
reformador da Universidade, D. Francisco da Annun- 
ciação. 

Tinha o habito de Christo e foro de fidalgo desde 
1748; e, apenas doutorado, ganhou de salto a beca 
de desembargador, e como tal foi enviado como es- 
crivão na alçada em que seu pai era presidente. En- 
tretanto, a sua vocação principal não era inforcar: 
eram as lettras, as academias; e depois veremos 
como as lettras e as academias o atraiçoaram. A 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 133 



real academia de Historia e a Pontifícia litúrgica de 
Coimbra applaudiram-o como sócio. A academia ma- 
thematica e geographica de Valladolid encarregou-o 
de escrever a Historia Geographica de Portugal; 
a Academia de Madrid convidou-o a escrever a No- 
ticia EXACTA DO TERREMOTO DE 1755. TradUZÍU do 

francez e annotou a Historia do tremor de terra 
de Lisboa, e discorreu seis vezes na Academia dos 
Occultos, de que era presidente. Tinha attingido o 
acumen litterario no século xvm. Gomo escriptor ju- 
rídico, podem avalial-o pela Sentença da alçada, 
prefaciada e commentada eruditamente. 

Logo que recolheu da sua missão ao Porto, 
foi nomeado juiz executor da fazenda da bulia da 
sancta cruzada, e, em 18 de maio de 1758, conse- 
lheiro do Conselho Ultramarino. decreto é tão hon- 
roso para José Mascarenhas que o nomeia por graça 
especial que não poderá ser allegada por exemplo. 
E acrescenta: E não obstante que não tenha tirado 
carta, nem se lhe haja de passar emquanto eu as- 
sim o não determinar, lhe ficará servindo de carta 
este decreto, para por virtude delle gosar desde a 
sua data todos os ordenados, emolumentos, honras, 
franquesas e antiguidades, de que gosaria se real- 
mente o estivesse exercitando no dito tribunal, em 
quanto se demorar no Brazil, ou eu não ordenar que 
este se publique, ficando por ora em segredo até eu 
resolver que elle baixe. 

D'esta arte galardoava Sebastião José de Carva- 



Í34 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



lho o escrivão da Alçada e o redactor da sentença 
que condemnou á forca a plebe do Porto, e ás des 
pezas apparatosas do exercito as famílias innocentes 
no motim popular. 

Escreve o snr. Soriano que José Mascarenhas de- 
via partir para o Brazil em fim de desembro de 175£ 
ou princípios de 59 por isso que no mez de desem- 
bro, a 14, recebera os ordenados vencidos de maic 
a desembro — 991 $110 reis. Não é exacta a hypc 
these do snr. Soriano. Em 20 de setembro de 175£ 
já José de Mascarenhas escrevia da Bahia de todc 
os Sanctos a Fr. Manoel do Cenáculo. Vê-se que par- 
tiu pouco depois de ser nomeado. Em 5 de agosto 
de 1759 escrevia de novo a Cenáculo. A 7 de de- 
sembro deste anno, o conde de Bobadella, vice-rei, 
escrevia do Rio de Janeiro ao ministro da Marinha 
participando-lhe que o conselheiro Ultramarino ainda 
estava na Bahia, causando transtorno, porque havia 
a resolver negócios que dependiam da sua presença. 
Este aviso irritou o conde de Oeiras, porque a sua 
missão dizia respeito à prisão dos jesuítas e ao con- 
fisco dos seus bens; e o conselheiro ultramarino, 
em vez de ir direito ao Rio, deixava-se estar mais 
de um anno na capital, a fazer o quê? Presume o 
snr. Soriano que estivesse doente. Nada, não estava. 
Tinha perfeitíssima saúde. Era a vocação litteraria 
que o estava perdendo. Contemplai e apprendei, ó 
desembargadores e conselheiros ultramarinos portu- 
guezes que viveis atormentados por verso e prosa ! 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 135 



Tinha havido na Bahia uma Academia chamada 
dos Esquecidos. Morrera de inanição; mas o nosso 
académico não podia consentir que uma academia 
assim se apagasse á mingua de phrases e de rheto- 
rica. Tratou de a renascer, e intitulou-a dos Renas- 
cidos. Nos novos Estatutos que elle, denominando-se 
Directo)' perpetuo, redigiu, justificava o renascimento 
pela necessidade de erigir um padrão de alegria que 
sentirão os habitantes da Bahia com a noticia do 
perfeito restabelecimento de Sua Magestade Fidelis- 
sima depois da sua perigosa enfermidade e do seu 
affecto d real pessoa. Em tão grande jubilo, não 
admira que a grammatica coxeie. Inaugurou-se a 
Academia dos Renascidos em 6 de junho de 1759. 
Houve muita eloquência do presidente, e dos sócios 
António Gomes Serrão e José Pires de Carvalho, etc. 
Elles eram quarenta effectivos e setenta e seis su- 
pra-numerarios, todos loquacíssimos. 

Era quanto esta gente palavriava no decurso de 
quinze sessoens, o conde de Bobadella chamava do 
Rio o seu conselheiro, e José Mascarenhas enfeiti- 
çado pelos filtros da Minerva da Bahia e também da 
Vénus local, ainda no dia 25 de abril de 1760 dis- 
cursava derramadamente acerca da historia militar 
do Brazil. 

Mas o vice-rei continuara a queixar-se da ausên- 
cia do conselheiro ; e o conde de Oeiras, apesar de 
académico, ordenou em 25 de janeiro de 1760 ao 
conde de Bobadella que o prendesse. Foi José Mas- 



136 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



carenhas prezo em 26 (Tabril de 1760, e a Acade- 
mia fechou-se atemorisada (diz o cónego Fernandes 
Pinheiro professor de litteratura) — atemorisada pela 
dispotica prisão de seu perpetuo director, o conse- 
lheiro José Mascarenhas Pacheco Pereira Coelho de 
Mello, acusado de inconfidência e sepultado nos cár- 
ceres de urna fortaleza, onde permaneceu até ao 
anno de 1778, no qual regressou aos seus lares. 
(Resumo de historia litteraria tom. n, pag. 31( 
e 317). Persuado-me que a primeira prisão do con- 
selheiro ultramarino não fosse na fortalesa, porque o 
conde de Bobadella só em 4 de fevereiro de 1761 
participa ao irmão do conde de Oeiras, Francisco 
Xavier de Mendonça, que José Mascarenhas fora 
lançado na prisão que se lhe indicara. Provavel- 
mente a negligencia do conselheiro em assistir ao 
vice-rei foi considerada parcialidade jesuítica, e 
d'ahi a inconfidência, — «falta de fidelidade ao rei». 
Mas não foi isso : foi a magia das lettras, o abysmo 
das academias que sorveu aquelle martyr pelas fau- 
ces de uma masmorra. Verdade é que, imputando Se- 
bastião de Carvalho aos jesuítas o motim do Porto, 
na sentença lavrada por José Mascarenhas não se 
encontra a palavra jesuíta, nem do summario das 
testemunhas se deprehende que a tortura arrancasse 
semelhante suspeita sequer. E' também certo que o 
desembargador do paço João Pacheco Pereira, pai 
do preso, continuou a merecer a confiança do mar- 
quez de Pombal, por que morreu quinze annos de- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 137 



pois chanceller-mor do reino. Não lhes parece que 
Sebastião de Carvalho, castigando o escrivão da Al- 
çada por demasias de crueldade, castigaria também 
o presidente que era o pai? 

José Mascarenhas esteve preso até 1777. Cahido 
o marquez de Pombal, regressou ao reino, lnnocen- 
cio e o snr. Sorianno sabem-no por que se encontra 
o nome d'elle entre os passageiros da náo Nossa 
Senhora da Ajuda, que fez infeliz viagem, n'aquelle 
anno, do Rio para Lisboa. noticiarista d'esta via- 
gem é Elias Alexandre e Silva que em 1778 publi- 
cou a Relação ou noticia particular da infeliz via- 
gern da náo de Sua Magestade Fidellissima, Nossa 
Senhora da Ajuda e S. Pedro de Alcântara. Elias 
Alexandre e Silva era alferes do regimento de Santa 
Gatharina, tinha nascido na Bahia, e era filho natu- 
ral de José Mascarenhas, como logo se mostrará 
com o testemunho de seu pae. 

Além da referida Relação, ha outras provas da 
sua vinda e da sua existência até 1788. São vinte 
e oito cartas autographas escriptas ao bispo de Beja 
e depois arcebispo de Évora, D. Frei Manoel do Ce- 
náculo Villasboas, as quaes se acham consignadas, 
pelas suas datas e localidades, no Cathalogo dos Ma- 
nuscriptos da Bibliotheca publica Eborense, ordenado 
com as descripçoens e notas do bibliothecario Joaquim 
Heliodoro da Cunha Rivara, tom. u, pag. 478. 

Das localidades e datas averigua-se que José 
de Mascarenhas desde 5 de agosto de 1759 nunca 



138 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



mais escreveu a Cenacnlo. Ve-se que a prisão er 
dura. Em 28 de desembro de 1778 já estava er 
Lisboa, por que n'essa data escreveu ao seu amigo. 
Trez mezes depois, escrevia-lhe da quinta do fri 
nal da Figueira, que não sei onde fosse. Em ju- 
nho estava em Lisboa, e em setembro de 1780 na 
quinta de Camarate. Depois seguem-se vinte carta 
datadas em Lisboa, e trez em Camarate. A ultima 
de Lisboa, aos 17 de setembro de 1788. Contava 
então 68 annos. 

E' de presumir que a correspondência fosse in- 
terrompida pela morte de José Mascarenhas. Pela 
do seu amigo com certeza não foi, por que o arce- 
bispo de Évora falleceu em 1814 com 90 annos de 
idade. antigo desembargador, amigo de José de 
Seabra da Silva, parece foi reintegrado no exercício 
das suas funcpoens. Ninguém lhe pediu contas das 
crueldades praticadas no Porto, por que realmente 
seria injustiça pedirem-lh'as, quando o marquez de 
Pombal se dissolvia pacificamente e podremente na 
sua casa avoenga. 



■*- 



Adivinhando, pela minha, a curiosidade do lei- 
tor, pedi ao meu intelligente amigo António Fran- 
cisco Barata, funccionario distinctissimo na biblio- 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 139 



theca de Évora, que me communicasse a summa das 
cartas de José Mascarenhas a D. Frei Manoel do Ce- 
náculo. Obsequiosa e rapidamente rne transmittiu o 
snr. Barata o seguinte extracto ao qual accrescen- 
tarei algumas notas que desobscureçam as allusoens. 

l. a Carta sem data. Manda um papel a Cená- 
culo e pede lh'o corrija. 

2. a (Bahia de todos os Sanctoe, 20 de setembro 
de 1758). Sente haver sahido de Portugal sem 
abraçar Cenáculo. Diz que foi em commissoens im- 
portantes, com o logar de conselheiro do Ultramar. 
Queixa-se de má viagem por haver epidemia a bordo. 

3. a (Bahia 5 d\tgosto de 1759). Assumptos lit- 
terarios e queixas de moléstias. 

4. a (Lisboa, 28 de dezembro de 1778). Principia 
julgando-se feliz por que escreve com honra, saúde 
e liberdade. 

5. a (Sem data). Prepara-se para visitar Cená- 
culo levando comsigo um afilhado. Que sente o seu 
máo eslado de saúde. 

6. a (Quinta do canal da Figueira, 19 de mar- 
ço de 1780). Accusa recebida uma carta de Cenáculo 
por mão do seu reverendíssimo irmão x . Diz que está 
de cama com a quinta sangria, e que padece do peito. 
7. a (Lisboa, 27 de junho de 1780). Queixa-se 



1 Este irmão de Cenáculo era o provincial dos francis- 
canos da Ordem 3. a , que nào foi deportado como diz o snr. 
Soriano. Vivia em Lisboa. 



140 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



do labyrinto da corte, onde oxalá nunca tivesse en- 
trado, e d'onde já não pode sahir. 

8. a (Camarate, 25 de setembro de 1780). Con- 
tinua a queixar-se de doença de peito. 

9. a (Lisboa, 24 de outubro de 1780). Que não 
pode desprender-se dos negócios da corte. Elogios 
a Cenáculo. 

10. a (Lisboa 1 de janeiro de 1781). Falia da 
corte, e da Providencia. Attribue muitas doenças 
que padece propriamente a si. 

ll. a (Lisboa, 10 de julho de 1781). Prepara-se 
para visitar Cenáculo. 

12. a (Lisboa, 7 d' agosto de 1781). Diz que é 
impedido de ir por quem pode l . 

13. a (Lisboa, 28 de maio de 1782). Que foi 
jantar com o amigo João Pereira. Falia de uns au- 
tos de ridículas denuncias 2 . Diz-lhe que conte com 
elle e com alguns ministros. 

14. a (Lisboa, 25 de junho de 1782). Dá noticia 
da morte de seu sobrinho José Mascarenhas de Le- 
mos Pereira Coelho de Mello, que muito o consternou. 

15. a (Lisboa, 9 de julho de 1782). Diz que tem 



1 Não queria desagradar aos ministros hostis ao bispo 
de Beja. 

2 Cenáculo, mandado retirar para o seu bispado de Beja 
logo que morreu D. José, foi vietima das intrigas dos adver- 
sários de Pombal, de quem Cenáculo foi faccioso amigo. João 
Pereira era o procurador geral da coroa, inimigo do marquez. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 141 



todas as armas precisas para segurar a victoria. 
(Referencia aos autos de carta 13. a ). 

16. a (Camarate, 29 de julho de 1782). Queixa- 
se de padecimentos. 

17. a (Camarate, 30 de julho de 1782). Princi- 
pia pelo psalmo Manus domini, etc. Lembra os sen- 
síveis golpes dos fallecimentos dos tios Mascarenhas 
e Bruxado, e sobrinho e primo D. António Maldona- 
do, e diz que morrera recentemente sua tia D. Se- 
raphina Mascarenhas. Agradece a missa que Cená- 
culo disse por alma de seu sobrinho. 

18. a (Lisboa, 6 d' agosto de 1782). Que esteve 
á morte; mas que o medico Moraes o dava como 
salvo. Está ás escuras e não pode ver luz. 

19. a (Lisboa, 13 d' agosto de 1782). Pede enca- 
recidamente a Cenáculo lhe valha no maior empe- 
nho da sua vida. Diz que não tem outro descendente 
senão aquelle filho que ainda anda com o nome de 
afilhado e se chama Elias Alexandre e Silva, que é 
alferes do Regimento de Santa Catharina; que o 
creâra desde creancinha no tempo do seu triste go- 
verno; e que o filho fizera no Brazil importantes ser- 
viços pelos quaes S. Magestade lhe dera o habito 
de Christo. Pede que o recommende a José de Mello 
Breyner, por intermédio de António de Mello e da 
mãe, condessa de Ficalho, a fim de que o trate bem 
no navio em que, sob o commando d'aquelle Brey- 
ner, vai para Angola no posto de capitão. Diz que 
foi sacramentado. 



J42 PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



20. a (Lisboa, 3 de setembro de 1782). Diz que 
José de Mello Breyner acaba de sahir de sua casa 
annunciando-lhe a sabida no dia 24 do corrente; 
mas que duvida que Elias o acompanhe. 

2l. a (Lisboa, 24 de dezembro de 1782). Parti- 
cipa que foi ao bota-for-a do filho. Refere-se ás pen- 
dências de Cenáculo. Lembra-lhe que necessita de 
melhores canonistas para seus advogados, e não 
doutores, como elle, ad honorem, porque a demanda 
envolve questões de primeira ordem. 

22. a (Lisboa, 4 de fevereiro de 1783).. Discorre 
acerca da jornada para o outro mundo, e pede a Ce- 
náculo que mande cobrar a lettra de 16 moedas 
que lhe emprestou sobre cinco fivellas e um relogic 
de ouro o Dr. Plácido Francisco, quando teve de 
acompanhar de repente uma irman. 

23. a (Lisboa, 18 de março de 1783). De cum- 
primentos. Diz que o filho talvez não passe do Rio 
de Janeiro. Falia dos negócios de Cenáculo. 

34. a (Camarate, 3 de junho de 1783). Sem in- 
teresse. 

25. a (Lisboa, 25 de novembro de 1783). Que 
está muito contente por que um certo amigo, em vez 
de ir para a sua terra, vem para Lisboa *. Que não 
percebe como alguém possa casar-se segunda vez 
tendo a primeira mulher viva. Que são enigmas; 



1 Allasào a José de Seabra da Silva. 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 143 



mas que dá a cousa como feita; e, publicada ella, 
irá visitar os ossos de S. Sisenando que fez o mi- 
lagre. 

Cartas 26. a e 27. a (de Lisboa) tractam assumptos 
canónicos. 

28. a (Lisboa, 3 de janeiro de 1784). Recorda 
um dia triste, o de 18 de janeiro de 1774. Que no 
dia 18 se completavam 10 annos '. Espera ser feliz 
n'esse dia, por que, sendo dia de desaggravo ao 
divino, espera que o seu incomparável amigo José 
de Seabra faça um despacho em desaggravo hu- 
mano. Acceita e dá parabéns a Cenáculo. 

29. a (23 de fevereiro de 1784). Falia na mitra 
patriarchal vaga, e allude a poder ser dada ao seu 
amigo bispo de Beja. 

30. a (Lisboa, 8 de maio de 1 786). Falia de doença. 

31. a e ultima carta. (Lisboa, 17 de dezembro de 
1788). Dá graças a Deus por ver dous amigos de 
ambos secretários de estado, e lamenta que a morte 
do incomparável Principe 1 nâo deixasse que elte 
Cenáculo fosse o presidente de todos os ministros. 



1 Era o decimo anniversario da prisão de José de Sea- 
bra em 18 de janeiro de 1774. 

1 Allude ao principe D. José de quem Fr. Manoel do 
Cenáculo tinha sido mestre e confessor. Os dois ministros 
eram José de Seabra e Luiz Pinto de Souza Coutinho, de- 
pois visconde de Balsemão. 



144 



PERFIL DO MARQUEZ DE POMBAL 



Depois destas impertinentes averiguaçoens, peç 
como única e liberalissima recompensa dos meus 
esforços, que nos não contem mais a dramática his- 
torieta de ter sido José Mascarenhas sepultado n'um 
calabouço por que não tratou os miseráveis tumul- 
tuados do Porto com a brandura e indulgência que | 
devia ter aprer "ido do seu amigo e mestre em for- 
cas Sebastião José de Carvalho e Mello. 



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Castello Branco, Camillo 

Perfil do marque z de Pombal 



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